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LUCAS

Atualizado: 17 de fev. de 2021


Jogamos cartas outro dia na casa do irmão da minha namorada. Canastra. Jogo difícil, pois sou novato na arte e eles já a dominam de longa data. Venho de um lar não habituado a essas disputas, de sorte que só fui aprendê-la quando adulto. Depois passei muito tempo sem jogar. Desde que começamos o namoro, no entanto, em plena pandemia, vimos a praticando com habitualidade, o que tem me permitido enfrentar esses desafios com mais segurança. Ganhamos, afinal, mas a disputa foi acirrada.

Enquanto estávamos concentrados no jogo, não pude deixar de perceber que o sobrinho da Maristela assistia TV na sala. Por estarmos no mesmo ambiente, fui invadido por uma certa nostalgia de quando meus filhos eram pimpolhos como ele, na faixa dos 3 anos de idade, e assistíamos juntos aos desenhos animados da época. Chamou-me, no entanto, a atenção, sobretudo, o conteúdo do programa que o Lucas assistia. Não saberia aqui precisar qual especificamente era o desenho, mas achei surpreendente o conteúdo educativo: lições animadas sobre a separação do lixo orgânico do seco, defesa dos animais, sobre como não devemos jogar lixo no mar, entre outras, o que para uma criança, certamente, ficará gravada na memória afetiva da infância, relacionada a uma experiência boa do ambiente acolhedor em que foi criada.

Que ferramenta poderosa temos em mãos para formar o caráter desses pequenos seres humanos que nos sucederão na condução do planeta!

O que me ocorreu, no entanto, ao presenciar a cena, em cotejo com o horror que hoje vivemos com esse governo desprovido dos valores mais fundamentais da civilização moderna, foi um questionamento e uma constatação: que educação essas pessoas que estão no poder receberam afinal quando crianças? Por óbvio que as pessoas que hoje estão no comando do país não dispuseram dos recursos tecnológicos, da cultura e da informação das crianças de hoje, mas certamente tiveram oportunidade de travar contato com as coisas boas, saudáveis e verdadeiras da vida, tanto que nem todos que sejam dessa geração – eu mesmo não sou muito distante deles – transformaram-se nos monstros de insensibilidade como essa gente é. Certamente também não aprenderam na escola os desvalores que hoje pregam, como a destruição da natureza, o questionamento do valor da ciência, o incentivo à cultura do ódio, a aversão à diversidade e o desrespeito ao outro. Aprenderam, talvez, em casa, o que demonstra que a família não está imune a produzir essas barbaridades.

Kant já dizia, conforme escreve Norberto Bobbio, em O Futuro da Democracia, que o melhor critério para saber se uma coisa é boa ou não, é se posso praticá-la em público. Tais coisas certamente estarão embasadas em valores compartilhados, diferente das ações que se tenha de praticar às escondidas. A educação que se dá pros filhos é algo que diz respeito à esfera da vida privada das pessoas, mas é imperioso que tenhamos a consciência que educamos os filhos para o mundo, não para nós e ao educá-los para o mundo temos que pensar se a maneira como os educamos é a melhor que poderíamos fazer não apenas para o filho, mas para o mundo também, dado que tal pessoa, quando chegar à vida adulta poderá se tornar um fardo para os demais, especialmente se chegar a uma posição de destaque, como a presidência do país, por exemplo. Quando assim não seja, a escola funciona como um referencial para algo que não vai bem e é preciso fazer uma correção de rumo, pois a escola está na esfera daquilo que se faz em público, cabendo a ela, pois, fazer essa primeira abordagem corretiva. Não à toa, seja ela a primeira instituição a ser atacada quando os bárbaros tomam o poder.



Não será por outro motivo que a educação das crianças, apesar de todos retrocessos que estamos vivendo, mantenha-se seguindo os parâmetros dos valores civilizacionais mais elevados, como o respeito à diversidade, ao meio ambiente, aos mais vulneráveis, aos animais e outros. A contrariu sensu, já pensou se houvesse escola, programas de TV e outras formas educadoras que formassem pequenos bolsonaros? Não teríamos como não ficarmos horrorizados. Já pensou um programa de TV, por exemplo, que ensinasse as crianças a exterminar os coleguinhas que divergissem delas? Ou a promover a destruição da natureza, através de queimadas e do extermínio dos povos originários que habitam essas terras? A responder com agressividade e com palavrões a questionamentos que elas não sabem o que dizer? A fazer pouco caso do sofrimento alheio? A desacreditar dos valores da ciência, da arte e da cultura?

Graças a Deus tais escolas não existem, nem tampouco programas direcionados à educação das crianças com esse teor, o que demonstra de forma cabal que esses desvalores dos quais hoje essas pessoas fazem apologia não encontram respaldo nos valores universais e nos grandes consensos da humanidade, a ponto de serem institucionalizados em saberes e normas de conduta, dignos de serem passados adiante, para as novas gerações. Só isso já deveria nos servir de alerta contra tais pessoas e sua pregação.

Diante de tantas atrocidades que o governo Bolsonaro e seus asseclas estão cometendo contra o país e a sua população, a pergunta que devíamos fazer para as pessoas que ainda o apoiam deveria ser justamente esta: você acha que tais valores e práticas deveriam ser ensinadas na escola, para seu filho? Afinal, apenas as condutas e os valores aprovados ao longo da história, objetos dos grandes consensos da humanidade sobre determinados temas, se cristalizam em saberes e normas para se institucionalizarem e chegarem à escola para servirem de inspiração às novas gerações.

Práticas e valores como os propalados pelo atual governo, por mais danosos que sejam – e justamente por serem danosos – não têm perspectiva de se estenderem no tempo muito mais do que apenas uma onda que pega as pessoas – de regra, pessoas recalcadas que comungam dos mesmos instintos reprimidos - pela sua novidade e por lhes darem, de repente a sensação de que podem romper com as amarras do consenso, mas que não tem condições de durar, dado que são práticas e valores autodestrutivos, pois resultam em morte e destruição.

Não desanimemos, pois! Essa onda passará e logo as pessoas se darão conta de que embarcaram numa canoa furada. Canoa que já está fazendo água, aliás. Basta ver os números da economia, das mortes pela pandemia e dos escândalos dos gastos públicos desarrazoados que estão começando a pipocar, envolvendo, inclusive, aquela que se dizia a vestal desse governo, as Forças Armadas.

Em outras palavras, por mais educação, como a que o pequeno Lucas está recebendo, no recesso de um lar saudável e amoroso, e menos Bolsonaro, com sua agenda de destruição e morte!



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