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ANEDOTAS DE GAURAMA

Passando a limpo velhos escritos, encontrei estes que reproduzem episódios reais, vividos ou ouvido narrar por meus pais e irmãos. Segue abaixo um aperitivo. Um abraço e boa leitura.

DONA LEOCÁDIA


Uma vizinha dos meus pais, Dona Leocádia, antiga conhecida da região, de origem polonesa, carregando muitos nos “rrs” e “és”, conversava com meus pais sobre a recente morte do meu tio-avô Fontana com 84 anos.

Contando já com uma boa idade, naturalmente esta velha senhora devia ter uma só preocupação: a proximidade da morte, e o tema do assunto que tratava com meu pai devia lhe parecer a ilustração próxima do inevitável fim que a aguardava a cada esquina, a cada síncope do coração, a cada suspiro de espanto, medo ou admiração...

Quem pode dizer quando chegará a nossa hora?

Sob o influxo destas emoções e talvez na tentativa de parecer delicada e se solidarizar com a dor do meu pai pela perda desse ente querido, Leocádia saiu-se com essa:

- Jééésus Marrria! O único médo que tenho é de um dia acordar morrrta!

Ao que nada mais acrescentou retirando-se em seguida, para alívio dos meus pais que, decerto, já não sabiam como segurar o riso que lhes acometia.


DONA LEOCÁDIA – Parte II


A casa que meu pai construiu para uma velhice tranquila ficou pela metade e o que era para ser motivo de sossego, tornou-se motivo de preocupação por causa daquele inesperado retardo da obra. Falta de dinheiro, naturalmente.

Só para se ter uma idéia do que estou falando e do que significou a inflação nos anos 80, até o começo dos anos 90, meu pai que havia vendido uma pequena chácara com 2,5 hectares ali pelo final dos anos 80 construiu uma casa de 2 pisos, com área de mais de 100 m2 com apenas 40% do rendimento da poupança sobre o capital aplicado. Não lembro de quanto era este capital, mas equivaleria ao que hoje se obteria com a venda daquela porção de terra. Quando entrou o plano real, a casa que estava inacabada – erguida e coberta – inacabada ficou, pois o dinheiro foi todo consumido - juro e capital - para fazer os acabamentos. E ainda não foi suficiente, pois faltaram alguns detalhes, tais como as calçadas em volta de casa e toda a pintura.

Pois bem, fechado este parênteses histórico, voltamos à narrativa.

Meu pai que foi mecânico a vida inteira guarda até hoje habilidades manuais que ele mesmo desconhecia, por isso quando lhe sobra tempo dos compromissos de uma aposentadoria comprometida com a sesta depois do almoço, o chimarrão e a fruição da paz e do sossego de uma cidadezinha pequena, seu Achiles – meu pai - pega da colher de pedreiro e põe-se a fazer muros e rebocos onde puder adiantar o trabalho que de outra forma teria de pagar para outro fazer.

Leocádia que entardecer costuma sair para recolher a vaca de leite que possui, de onde a tinha levado pastar, no geral nos terrenos de baldios da redondeza, passava às vezes pela frente da casa dos meus pais.

Numa dessas ocasiões, ao contemplar o trabalho minucioso e artístico de meu pai – uma característica recorrente dos trabalhos do velho – no remate final de um muro em frente de casa, com pequenas ondulações em seu cimo,saiu-se com esta:

- Jééésus Marria! Quer dizer então que agora até carpintérrro é?! – querendo referir-se ao trabalho de pedreiro que o velho executava, num flagrante que mais uma vez punha meus pais em apuros para disfarçar o riso que lhes acometia.

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