top of page

AMARELO

Atualizado: 4 de mar.

Saía eventualmente mais cedo do trabalho. Certo tédio que o aguardava em casa fazia com que Maurício adotasse o hábito de caminhar pela cidade. Não era um lugar muito grande, por isso acabava dando voltas nas quadras, passando mais de uma vez pelas mesmas ruas.  Na confusão do trânsito e do fim do expediente do comércio, ninguém dava por isso.  Como o rio de Heráclito, aquele mar de gente nunca era o mesmo, exceto por ele. Esse o fascínio do hábito: o imprevisível! Não raro, nessas ocasiões, cruzava por alguém interessante, cujo olhar recíproco o desviava da rota habitual, levando-o a uma aventura inesperada.  

Não era tímido. Apenas achava que tinha passado da idade para frequentar lugares onde flertar. Não que suas voltas pela cidade tivessem apenas esse propósito. Não o descartava, contudo. Esses passeios representavam, antes de mais nada, sua revolta particular contra o tédio e a solidão, quando até os encontros com amigos se tornam eventos previsíveis. O mesmo podendo se dizer desses locais de diversão. Não lhe agradava de que devessem acontecer apenas em lugares pré-determinados. Gostava da ideia do casual.  

Foi numa dessas andanças que Maurício teve a impressão de passar mais de uma vez pela mesma mulher. De estatura mediana, cabelos castanhos encaracolados, aparentando meia idade, usava um blazer amarelo que já lhe chamara a atenção. Assim, tinha ficado fácil identificá-la uma segunda vez na multidão e, depois, uma terceira. Teria ela também o hábito de andar pela cidade após o expediente?  

Movido pela curiosidade, se aproximou e puxou conversa: 

- A gente tem que se cuidar. Este trânsito está maluco! – arriscou, esperando o sinal fechar para atravessarem a pista.  

- É verdade – respondeu ela, não parecendo surpresa pela abordagem.  

- Por isso prefiro vir a pé trabalhar. A gente não acha lugar para estacionar.  

- Eu também.  

- Você mora aqui perto? 

- Sim, a duas quadras. 

Neste momento, quando já estavam chegando do outro lado da Avenida, veio na direção deles um conhecido, encontrando-os exatamente na esquina da Avenida Brasil com a Fagundes do Reis. O vínculo ainda não havia se formado. Não tinham se apresentado, tampouco declarado o caminho que seguiriam. Entre cumprimentar o conhecido e prestar atenção nela, na confusão da esquina, com gente vindo de todos os lados, um segundo foi suficiente para perdê-la. Ela tomou o rumo da Avenida, enquanto Maurício, após cumprimentar o conhecido, tomou o deste, da Fagundes. Hesitou um momento se devia retroceder, ir atrás dela, alcançá-la de novo, ou seguir o seu. Percebendo que a havia perdido, não tinha como continuar aparentando naturalidade. Não conseguiria retomar o tom de casualidade.  A conquista lhe havia escapado.   

Após o acontecido andou dias pelo mesmo lugar, palmilhando o roteiro, mais ou menos na mesma hora em que a havia encontrado. Em vão. Não a encontrou mais.  

Março estava terminando e, junto com ele, o horário de verão. Logo as tardes ficariam mais curtas e o hábito de caminhar sem rumo pela cidade perderia a graça. Não que fizesse isso todos os dias. Apenas quando o inspirava a vontade de andar e rematar a aventura com um chope no B24, o único bar do centro com vista para o movimento da Avenida.  

Qual não foi sua surpresa quando, após uma dessas aventuras, notou a presença da mulher do blazer amarelo, do outro lado do bar, fazendo o mesmo que ele: bebendo, não um chope, mas o que parecia ser uma água tônica com limão, com os olhos distantes, observando o fluxo de Heráclito.  

Semanas haviam se passado desde aquele primeiro encontro. Maurício não tinha certeza se era a mesma pessoa. Mas o casaco amarelo e o fato de estar fazendo o mesmo que ele, o deixou intrigado. Seria ela? Só havia uma maneira de saber: 

- Você, de novo? 

Um certo espanto no olhar dela fê-lo hesitar.  

- Desculpe, não estou certo, mas acho que nos conhecemos. Bem... quer dizer, quase nos conhecemos... Nos encontramos na rua há algumas semanas...  

A situação era difícil. As referências a esse primeiro encontro não ajudavam muito. O certo é que, embora bastante fugaz, ela lhe havia causado uma impressão. Teria ele produzido o mesmo efeito nela?   

- Não estou lembrada, desculpe.  

- Quem pede desculpas sou eu. Foi um encontro bastante rápido. Eu estava caminhando na rua quando imaginei... posso me sentar? Você está sozinha? 

- Sim, pode. 

- Bem, como estava dizendo: eu vinha caminhando na rua quando imaginei vê-la passar por mim mais de uma vez... então bateu-me a curiosidade: será que ela também faz isso? 

- Isso? Isso o quê? 

Novamente, Maurício se punha numa situação difícil. Primeiro, porque não tinha certeza se a mulher com quem conversava era efetivamente a mesma daquele encontro. Segundo, porque, mesmo se fosse, não tinha certeza se ela estava, na ocasião, caminhando a esmo, como ele. E, se estivesse, talvez não gostasse de ter o segredo revelado, agora, por um estranho, numa mesa de bar.  

Hesitou por um momento se devia dar andamento à conversa, pois corria o risco de parecer maluco. 

- Desculpe. Estou me adiantando. Talvez devêssemos nos apresentar antes. Posso perguntar seu nome? 

- Letícia. E o seu? 

- Maurício. Muito prazer! 

Na tentativa de desfazer a tensão incialmente criada, bebericou do chope esquecido entre as mãos. Ela também o fez da água tônica, enquanto o estudava.  

- Você vem sempre aqui? 

- Não. Apenas de vez em quando. Gosto do lugar, mas não do ambiente, se é que me entende.  

- Sim. Eu também. A localização é ótima, já o bar... 

- É, deixa a desejar.  

- Meio mal frequentado, e essa TV... não sei por que a deixam ligada. O som ambiente também não é dos melhores.  

- É verdade. 

- Mas é o único bar em todo o centro que dá para a Avenida.  

- Sim.  

- Tinha o Krep’s... mas acabaram fechando.  

- Também gostava de ir lá de vez em quando. Fazer happy hour, nem que fosse só comigo mesma. 

Dizendo isso, Letícia sorriu, erguendo uma ponta do véu de mistério que a cercava. Sentindo-se encorajado, Maurício achou que podia avançar um pouco mais. 

- Então... você falou de happy hour. Também faço os meus. De vez em quando. É bom, né? 

- Sim, eu curto. Sobretudo no verão, com essas tardes mais longas.  

- Então, a gente tem que arrumar o que fazer. Ir simplesmente para casa após um dia de trabalho pode ser bem chato. É bom sair da rotina.  

- Concordo.  

- E se você for parar para pensar, é o que a gente faz. Do trabalho para casa, da casa para o trabalho. A gente acaba virando um autômato.  

Estaria indo rápido demais? Temia que aquela conversa a aborrecesse, afinal mal se conheciam e talvez Letícia não fosse a pessoa que Maurício imaginava. Tudo poderia ser uma fantasia da sua cabeça.  

- Desculpe! Eu me empolgo.  

- Percebi.  

- Mas, me diga, o que você faz?  

- Eu? Sou dentista. Trabalho numa clínica aqui em frente. E você? 

- Sou servidor público. Da geração que fazer concurso neste país era o que restava. 

- Como assim? 

- Anos 1980, sabe? No Brasil nada funcionava. Se você tivesse dinheiro, jogar com a especulação financeira era o canal. Investir numa atividade produtiva, nem pensar. Trabalhar, na época, era coisa para otário. No meu caso, o negócio foi fazer um concurso público.   

- Entendo. Que coisa, né? 

- Então, primeiro eu fiz para a Caixa. Depois, para a Justiça Federal. É onde trabalho hoje. Não reclamo. Gosto do que faço.   

- Mas você gostaria de ter feito outra coisa? 

- Na época, eu cursava Filosofia. Naturalmente me tornaria professor, mas com o que ganha um professor, você mal consegue se manter. É lamentável.  

- É verdade. Mas não acha que fazendo pós você poderia ganhar mais? 

- Poderia, mas o fato é que a vida acadêmica também não me agradava. O que eu queria mesmo era escrever. Me pareceu que poderia ter um trabalho qualquer para me manter e escrever nas horas vagas.  

- E escreveu? 

- Um pouco. No interior essa coisa é muito complicada. As pessoas não compreendem isso muito bem.  

- E por que não foi embora? 

- Casei, tive filhos. Os anos foram passando. Me acomodei. 

- Você é casado? 

- Separado! E você? 

- Também.  

- Tem filhos? 

- Não. 

Letícia deu essa resposta resolutamente e acrescentou:  

 – Preciso ir. 

Maurício teve a sensação que ela escapava de alguma coisa.    

- Ah, sim. Mas como a gente se encontra de novo?  

- Procure-me no Face, Letícia... Letícia Sampaio. Nos falamos.  

Saiu rapidamente como quem fosse atender a uma emergência. Maurício ficou repassando mentalmente a conversa para saber onde poderia ter pisado na bola, falado algo que pudesse tê-la desagradado. Mas não encontrava nada que pudesse explicar aquela atitude intempestiva. De qualquer forma tinha o Face dela e uma vaga referência à clínica dentária nas proximidades.   

Chegando em casa, entrou no Face e a encontrou. Poucas referências pessoais. Enviou o convite para amizade, mas os dias foram passando e não teve resposta. Parece que ela usava muito pouco as redes sociais.  

O inverno chegou e as caminhadas pela cidade ficaram mais difíceis. Quando não estava chovendo, era ainda possível realizá-las, mas, naturalmente, elas não tinham a graça do verão. As pessoas, encolhidas de frio, só queriam saber de chegar em casa. E a referência dele, o casaco amarelo, naturalmente de nada adiantava naquele clima. 

Maurício andou por algumas clínicas dentárias nas imediações do bar, mas não encontrou referência ao nome dela. Provavelmente Letícia trabalhava numa dessas clínicas coletivas que não ostentam o nome dos profissionais. Chegou até a fazer uma revisão numa delas, aleatoriamente, para ver se a encontrava, por acaso. Nada! 

A primavera deu o ar da graça, e os dias começaram a ficar mais longos e agradáveis. Logo seria possível retomar as caminhadas pela cidade, apreciar as vitrines, observar as pessoas condicionadas ao corre-corre da existência. Foi numa dessas ocasiões que ele a encontrou de novo. Ela não estava com o casaco amarelo, e sim com um blazer marrom.  

- Letícia?  

- Sim! 

- Maurício... Está lembrada de mim? 

A expressão de espanto não deixava dúvida. Ela não lembrava.  

- Tudo bem. Desculpe! Foi realmente um encontro bastante rápido. Eu enviei um convite no Face, mas você não respondeu.  

- Desculpe, eu uso muito pouco as redes sociais.  

Ela parecia aflita, como querendo fugir de uma abordagem incômoda.  

- Podemos nos encontrar de novo? 

- Estou um pouco com pressa. Talvez possamos conversar um outro dia.   

Maurício resolveu apelar: 

- Mas você tem um cartão? Preciso fazer uma revisão... nos dentes – disse mostrando os dentes de forma patética.    

- Ah, sim, desculpe. Deixe-me ver...  

Letícia, finalmente, entregou-lhe um cartão com seus contatos.  

- Agora tenho que ir. Obrigada. 

Maurício, atônito, ficou a observá-la se afastar, aflita. Parece que a sua presença não lhe despertara boas lembranças. Já não sabia se devia insistir naquele encontro. Intuía, no entanto, que havia algo mais e quando não fosse por outra razão, a curiosidade de saber o que era, já seria motivo para marcar a consulta.  

Compareceu no dia aprazado com uma certa antecedência. De fato, era uma clínica popular. As pessoas não têm condições de bancar um tratamento dentário particular, tampouco o dentista consegue manter um consultório sozinho, como antigamente. A popularização dos atendimentos se tornou inevitável.  

Bom que as pessoas possam ter acesso a tratamento dentário a preços módicos! - pensava Maurício, enquanto aguardava ser chamado.   

Finalmente chegou sua vez e, de branco, ela estava ainda mais bonita.   

Letícia, no entanto, novamente parecia não tê-lo reconhecido. Maurício hesitou entre um sorriso amistoso, de conhecido e o formal de um mero cliente. Na dúvida, preferiu a neutralidade. Ela o atendeu de forma protocolar. Nada que indicasse que já se conheciam. Ao final, Maurício não se conteve: 

- Letícia, desculpe, mas você não me reconheceu? 

Um tanto desconcertada, ela fez que não.  

- É a terceira vez que conversamos e você não demonstra qualquer emoção.  

- Desculpe! Não sei o que dizer. Por favor! Eu estou no meu local de trabalho – falou ela, indicando-lhe a saída.   

Sem opção, Maurício arrastou sua carcaça até o balcão, pagou o tratamento e saiu. O que estaria acontecendo? 

Os dias se passaram e Maurício resolveu que não havia por que insistir. Talvez ela apenas não tivesse gostado dele.  

O calor chegou, e as caminhadas ganharam frequência semanal. O horário de verão praticamente constrangia a isso. Era inevitável, portanto, que eles se encontrassem de novo. O blazer amarelo não deixava dúvida. Mas, desta vez Maurício preferiu adotar outra estratégia. Não a abordou. Seguiu-a à distância. Qual não foi sua surpresa quando comprovou: ela também andava a esmo! Tomado pela emoção, resolveu abordar essa mulher interessante e misteriosa: 

- Letícia! 

- Sim! 

- Não posso acreditar! Você não me reconhece? 

- Desculpe! Não.  

- Maurício! Nos conhecemos no verão passado. Fui ao seu consultório... 

- Desculpe... 

Maurício sentia que tocava numa tecla sensível. Por que ela fugia? 

- Espere! Não quis amedrontá-la. Podemos conversar? 

Maurício sentiu que ela relaxava. O retraimento da expressão desesperada deu lugar a uma distensão e os olhos, antes assustados, ganharam confiança.   

- Vamos sentar aqui, pode ser? 

- Prefiro lá dentro.  

Entraram no bar, na frente do qual o encontro inesperado tinha acontecido.  Recém aberto, em estilo lancheria americana, era cuidadosamente decorado com motivos relacionados à história do Rock, com mesas fixas e bancos em courino vermelho, dispostas nas laterais, ao longo das paredes decoradas com quadros de Bob Dylan, John Lennon, BB King, Chuck Berry e outros.  

- Por que você foge? 

Do outro lado, um olhar constrangido de quem estava em dúvida se podia confiar naquela pessoa desconhecida. Maurício percebia a reação, mas não entendia.  

- Como eu disse, nos conhecemos no verão passado. Impossível você não lembrar. Por que você me evita?  

- Desculpe, não é que eu evito... é que... 

- O que é, então? Minha presença a desagrada?  

Novamente aquele olhar como de quem pedisse socorro, o qual deixava Maurício sem saber o que fazer. Tinha vontade de abraçá-la, ampará-la, tirá-la daquele lugar, no qual, parece, ela se afogava.  

- Nos conhecemos mesmo? 

- Claro que sim! 

- Você precisa entender... 

- O quê? 

- Eu posso até te conhecer, mas não lembro quem você é. Sofro de um distúrbio que me impede de reter memórias. Tem um nome complicado. Foi em decorrência de um acidente. Há coisa de cinco anos. Desde então, eu não consigo reter a memória das pessoas que conheço. Apenas daquelas que eu já conhecia. As novas, tenho que anotar o nome, quem são e qual a minha relação com elas. Naturalmente que isso não contribui para meus relacionamentos. Já passei por muitas experiências desagradáveis, como você pode supor. Vou ser franca...  

- É o que eu quero. 

- Imagina acordar na cama de um cara que você não sabe quem é e como foi parar ali. Por isso tenho evitado esse tipo de contato. As pessoas não entendem. Não é desamor ou indiferença. É realmente um problema.  

Maurício estava perplexo, mas aliviado. A resistência dela nada tinha a ver com ele.  

- Às vezes, quando ando pela cidade, acontece de passar por uma pessoa interessante. É inevitável. Fica, no entanto, difícil explicar para essa pessoa que, para esse encontro ter continuidade, tenho que anotar os dados dela. Foi isso provavelmente que aconteceu conosco. Não me leve a mal. Eu simplesmente não lembro. Você não imagina como isso é torturante para mim.  

Depois de ouvir a história de Letícia e descobrir naquela mulher o mesmo hábito que ele considerava uma excentricidade exclusivamente sua, da qual nunca falara com ninguém, Maurício só pensava numa coisa: conseguiria despertar nela a vontade de anotar seus dados? 

 



144 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

A PESQUISA

Comments


bottom of page