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A PESQUISA

Atualizado: 4 de mar.

A decisão de pesquisar na internet não foi premeditada. Foi ao natural. Na verdade, quase uma brincadeira, pois Roberto já tinha todas as provas de amor de que precisava. 

Digitou o nome de Luciana na barra de pesquisa do Google e, antes de apertar o enter, ainda hesitou um segundo. Alguma coisa lhe dizia que aquele simples gesto poderia mudar tudo, mas mesmo assim ele continuou.  

O impulso e a curiosidade falaram mais alto quando os tópicos relacionados começaram a aparecer. 

Todos normais, inofensivos, por assim dizer: perfil em diversas redes de relacionamentos e profissionais – do quais alguns ela não havia lhe falado -, fotos no Instagran, eventos de coluna social – ela concorreu à rainha das piscinas pelo Clube Comercial, no último verão - até a sua mais remota participação no Garota Verão.  

Uma, contudo, relacionada a este último tópico lhe chamou a atenção. Dizia respeito a uma ação movida por ela contra um ex-namorado por divulgação na rede de vídeo e fotos íntimas. A notícia mencionava ainda que a ação havia sido vencedora e que o Google e outros sites de buscas haviam sido proibidos de veicularem tais imagens. Daí que elas não estivessem mais acessíveis. Por conta desse fato, a família havia mudado de cidade.  

Ela jamais havia mencionado tais fatos, durante o tempo em que estiveram juntos. E estamos falando de quase um ano. Ao contrário: segundo lhe consta ela havia dito que era natural de Passo Fundo. Talvez pelo receio dessa parte obscura do seu passado.  

Procurou mais sobre o assunto, mas não encontrou nada além daquela notícia, nua e crua.  Deu-se conta, do infeliz trocadilho. De qualquer sorte, a única com a qual ele teria que reavaliar dali para frente o que achava que sabia sobre ela.   

Muitas coisas passaram por sua cabeça, mas a mais grave, era a falta com a verdade que ela havia cometido em relação a sua naturalidade. É claro que com o tempo, se o namoro entre eles engatasse, aquilo acabaria vindo à tona e talvez tudo se esclarecesse, mas também era possível que não.  

Ele já não sabia mais o que pensar. Guardar aquela informação e esperar para ver o que ia acontecer ou ir logo lhe pedindo explicação?  

Como cobrar explicação de alguém, contudo, que havia passado por aquele trauma? Ele que ainda tinha dúvidas se podia se considerar o seu namorado.  

Uma coisa, porém, era certa: não podia deixar que aquilo interferisse no relacionamento. Temia que isso pudesse a assustar. O rompimento lhe causaria sofrimento, afinal já estava apaixonado.  

Preferiu deixar o assunto assim, exatamente como estava antes de ter aquela infeliz ideia.  

O tempo foi passando. E ele esqueceu o ocorrido.  

Firmaram o relacionamento quando este completou um ano.  Por iniciativa dela. Não houvesse ocorrido aquele pequeno contratempo, a iniciativa teria sido dele. Contudo, como o tempo torna tudo mais indistinto, como as imagens, à longa distância, ele aceitou. Até anel de compromisso eles passaram a usar. Comprados, por ele, embora a ideia tenha sido dela. 

- Assim os homens param de dar em cima de mim quando perceberem que tenho alguém. 

  • Tu achas mesmo necessário? Eu nunca usei esse treco, nem saberia comprar. Tem que ser de ouro? Isso é como um noivado? 

  • Não, bobo! Nada a ver. É de prata, apenas como prova de compromisso.  

  • Você já usou? 

  • Já. 

  • Você nunca me disse. 

  • Bem, você não perguntou.  

  • Com quem? 

  • Com meu ex, já te falei.  

  • Mas foi sério assim?  

  • É que eu não gosto de falar dele, e provavelmente nem você gostaria que eu ficasse falando.  

Roberto não podia tirar-lhe a razão. Era mesmo ciumento e não gostava de pensar em sua namorada nos braços de outro homem, do qual ele sabia que era só um cara mais velho - o quanto, não quis perguntar. Ainda que o sujeito estivesse lá no passado, havia todo aquele episódio das fotos íntimas, a repercussão que aquilo havia tido na sua vida e na cidade de onde eram naturais.  

Tinha receio de tocar no assunto com ela. Não sabia até que ponto aquelas feridas  ainda estavam abertas. Aliás, a resistência dela em falar do ex demonstrava que elas ainda não estavam cicatrizadas. Temia indispor-se com ela se revelasse que sabia sobre o ocorrido, sobretudo porque, até aquele momento, ela também não havia lhe revelado que não era natural de Passo Fundo.  

O pai de Luciana foi gerente do Banco do Brasil. Hoje estava aposentado. A mãe, professora. Foi fácil para eles mudar de residência, assim ao menos lhe parecia, pois estavam bastante entrosados na cidade e eram adeptos dos costumes daqui, o que incluía tomar chimarrão, fazer churrasco aos domingos e torcer para os times locais. O pai, para o Grêmio, a namorada, para o Inter. A mãe dizia não entender dessas coisas.  

Mais de uma vez Roberto quase deu com a língua nos dentes, tipo perguntando se já haviam se adaptado à vida em Passo Fundo, pois apesar de estarem perfeitamente entrosados com os hábitos da cidade, não tinham parentes aqui. Tanto por parte do pai, como por parte da mãe, quase todos haviam ficado em São Miguel do Oeste, extremo oeste catarinense, quase divisa com a Argentina. Era fácil perceber, por esse detalhe, que eram desterrados. Quanto mais Roberto entrava na intimidade da família, mais isso ficava evidente.  Os aniversários, os feriados e as festas de fim de ano, ou eram passados lá, ou eram mediante a vinda dos familiares.   

  Ficava cada vez mais difícil para Luciana manter a versão de que era natural de Passo Fundo.  

  • Engraçado. Como é que vocês vieram parar aqui? 

  • Como assim? 

  • Os teus parentes. São todos de Santa Catarina. 

  • Papai foi criado por um tio-avô que residia aqui. Não me pergunte porque que eu também não sei – respondia ela, insistindo em manter oculta a verdadeira história.  

Roberto se decepcionava com as evasivas da namorada, mas a amava demais para deixar isso interferir no seu relacionamento. Pensava, contudo, que se aquela história fosse adiante, um dia aquilo seria esclarecido.  

Os anos foram passando e o relacionamento foi ficando mais sério. O anel de compromisso deu lugar à aliança de noivado e a data do casamento foi marcada para dali a um ano.  

Roberto estava concluindo o curso de Direito e Luciana, o de Nutricionista. Ambos já trabalhavam em suas respectivas áreas. A ideia era de morarem juntos depois de formados. Mas antes o pai de Luciana exigia que eles casassem. 

Naquele verão, as festas de fim de ano seriam passadas em São Miguel do Oeste,  a terra de origem da sua futura esposa, embora esta continuasse a insistir numa mentira que não fazia mais sentido. Roberto já começava a cansar daquilo. Até se descuidava com a verdade que ambos mantinham oculta. Por quê, ele não entendia, pois aquele episódio para ele estava completamente superado. Amava aquela que seria sua mulher, mas lhe incomodava que esta continuasse a insistir na mentira. Pensava, contudo, se alguém devia tomar a iniciativa de contar a verdade tinha que ser ela.   

Viajaram na véspera do ano novo. Os festejos aconteceriam na casa do tio de Luciana, onde eles também ficariam hospedados.  

Era apenas a segunda vez que Roberto viajava com eles para São Miguel do Oeste. Conhecia, portanto, só parte da família. Naquela ocasião, contudo, acabou conhecendo quase toda, uma infinidade de tios, primos e sobrinhos que foi difícil para ele reter quem era quem. Só aos poucos, com a ajuda de Luciana as peças foram se encaixando.  

O combinado era depois da ceia e dos fogos, esticarem a noite no baile de Reveillon do Clube Comercial e foi o que fizeram, na companhia dos primos Elias e Rafael, e suas respectivas namoradas. Os mais velhos não quiseram ir. 

 Elias cursava Medicina em Joaçaba, Rafael Agronomia na Universidade Estadual de São Miguel mesmo. Ambos tinham muitas amizades na cidade. Chegando na festa, apresentaram Roberto para os amigos que já haviam reservado duas mesas, próximas da pista. Luciana já era conhecida do grupo, que a recebeu com grande alarido entre as mulheres, amigas e conhecidas que não se viam há muito tempo.  

São Miguel do Oeste, com 40 mil habitantes, pode ser considerada uma cidade pequena. Quase todos se conhecem. Ficou claro para Roberto, de repente, o que Luciana devia ter passado quando aquelas fotos e vídeos vieram à tona. Na época ela teria pouco mais de 17 anos. Era admirável, portanto, que ela demonstrasse coragem de novamente aparecer em público, onde tudo havia acontecido.  

Mas Luciana estava apreensiva. Era a primeira vez que fazia essa aparição pública. Embora já tivesse decorrido quase 10 anos, muitas das pessoas que ali estavam tinham sido contemporâneas dos fatos. E com muitas, Luciana não tinha mais travado contato desde então. Até naquela mesa, havia pessoas que não a tinham visto mais. Era inevitável, portanto, que os fatos que motivaram o afastamento viesse à mente de todos quando Luciana reapareceu. Para Luciana, Roberto era, naquele momento, seu porto seguro. Não por outro motivo, desde que entraram no salão, ela não desgrudava do seu braço.    

Após as efusões do reencontro, as conversas sobre a mesa, começaram a transcorrer de forma bastante cuidadosa. Parece que todos estavam pisando em ovos com ela. 

Lia, a mais extrovertida delas e que estava acompanhada por aquele que parecia seu namorado, iniciou o bate-papo: 

- Luciana, quanto tempo que não nos víamos! Como você está bonita! 

- Obrigada! 

- Você estão em Passo Fundo? 

- Sim. 

- Humm, ficamos sabendo. E o pai e a mãe, estão bem? 

- Sim, estão. Tudo bem! 

- O pai sempre fala do seu Osvaldo. Ele deixou muitos amigos por aqui.  

- Sim. O pai era bem conhecido...   

Amanda, um pouca mais tímida e que parecia mais próxima de Luciana perguntou-lhe o que ela estava fazendo.  

 - Estou terminando Nutrição.  

- Lá em Passo Fundo? 

- Sim, na UPF. E você? 

- Estou no segundo ano de Pedagogia na UDESC. 

Após um minuto de silêncio constrangedor: 

- Você sumiu.  

- Sim – fez Luciana, baixando o olhar.  

- Desculpe, não quero te constranger. E agora como você está? 

- Indo. Estou fazendo terapia. Estou bem melhor.  

- Que bom! – Amanda, também parecia aliviada.  

Após esse primeiro momento de tensão, a conversa se distendeu, sobretudo, entre os homens, versando invariavelmente sobre futebol. O Grêmio havia perdido a chance do campeonato mundial e os colorados continuavam a tirar sarro dos eternos adversários. As mulheres acabaram trocando de lugar para ficarem mais próximas. A curiosidade sobre Luciana ainda não havia se esgotado.  

- Como você tá mudada guria! Virou um mulherão, hein! – fez Sofia apenas uma conhecida daquela época.  

- Obrigada! 

- É o amor! E que gato, hein? Da onde desencavou esse? 

- Nos conhecemos na faculdade.  

- Ele faz Nutrição também? 

- Não, Roberto está terminando Direito. Vamos nos casar depois que ele se formar – disse Luciana, triunfante, mostrando o anel de noivado.  

- Guria, deixa eu ver isso! Nossa! É um rubi? 

- Acho que sim. Bonito, né? 

- Lindo!!! 

A música que havia sido interrompida por causa dos brindes de fim de ano e da ceia, recomeçou muito alta. Eles haviam ficado muito próximo do palco, por isso as conversas diminuíram, fazendo com que, por um momento, todos ficassem com seus pensamentos.  

Roberto e Luciana se olharam confiantes, com um sorriso de cumplicidade no olhar. Cumplicidade que, no entanto, Roberto sabia que não era completa. Ele queria participar daquele momento que ela estava passando, para ajudá-la. Quando tocou a música que eles consideravam sua – Somewhere Only We Know – Roberto a convidou para dançar e no seu ouvido, após um momento, lhe perguntou: 

- Por que você não me contou? 

Assustada e surpresa Luciana parou, fixando seus olhos nos dele. A confiança estampada no rosto de Roberto, no entanto, exerceu nela um efeito tranquilizador.  

Abraçou-o com força novamente, retomando a dança, deixando-se levar pela melodia.  

- Como você soube? – perguntou-lhe sem o encarar. 

- Não importa. Importa que eu sei e compreendo. Estou aqui para te ajudar...  

- Obrigada! – respondeu ela depois de alguns minutos. 

Ao retornarem à mesa, contudo, perceberam que os amigos estavam diferentes. Estavam tensos e se olhavam constrangidos. Luciana não entendia o que estava acontecendo, Roberto menos ainda. Tentaram entabular conversa, mas havia alguma coisa estranha no ar. Estavam todos desconfortáveis. Luciana olhou para Rafael, o primo mais próximo, com um olhar de quem não estava entendendo o que estava acontecendo, ao que Rafael respondeu-lhe com um olhar de embaraço.  

Luciana foi conferir as mensagens no Whatsapp, quando constatou o envio de um número desconhecido. Um vídeo!  

Tomada de uma crise de pânico, levantou de um salto, procurando, em disparada, a saída.  

Roberto, sem entender o que estava acontecendo, por instinto apenas a seguiu, apavorado. 

Ao passar por entre as mesas teve a impressão de que as pessoas riam.

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