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A SEGUNDA PELE

A sobrevivência não basta! 

Quando mais jovens almejamos algo maior e mais significativo para nossas vidas que, na ausência de recursos, tivemos de abrir mão em nome da sobrevivência. 

Trabalhamos e acabamos deixando isso pra lá.  

Mas as marcas ficaram. Ficou um pouco daquela nostalgia, como já disse num poema, “das coisas que não vivi”. 

Vencidas as batalhas que a vida nos impôs e quando não mais precisamos das armas com que nos municiamos para enfrentá-las, descobrimos que essa nostalgia sempre esteve ali. 

A nostalgia daquelas coisas que, em algum momento, deu sentido à nossa existência. 

É disso que se trata quando falo de libertação. 

Libertação dos conceitos que criamos para aceitar o que não pudemos mudar, das racionalizações que nos fizeram aceitar a renúncia dos ideais. 

Não é fácil, pois muitos se põem nessa camisa de força e a libertação os deixa sem chão, sem rumo. 

É como se elas tivessem de arrancar a própria pele, sem saber que essa não é a pele de verdade, mas a segunda pele que criamos para sobreviver. 

Segunda pele da qual agora não precisamos mais, podemos abandonar e resgatar a autenticidade que deixamos lá trás, em algum lugar,  à beira do caminho. 

Isso é libertação!  

Os filhos nos ajudam nesse processo,  pois eles vêm cheios desses mesmos ideais e nos obrigam a fazer uma releitura de nós mesmos. Na medida do possível nos realizamos através deles, quando podemos ajudá-los a realizar seus sonhos. Mas isso também não basta. Um dia os filhos vão embora, viver a própria vida e a gente não pode fazer muito porque o caminho e o processo são deles. 

Sempre me causou, por isso,  uma certa perplexidade que alguém faça escola das renúncias  que já fez, adote essa segunda pele como sua e nunca se questione se teria sido mesmo esse o caminho que escolheria não fossem as circunstâncias e a necessidade, tornando-se militante dela até o apagar das luzes. 

Em 2017, a enfermeira australiana Bronnie Ware, lançou o livro “Antes de Partir: os 5 Principais Arrependimentos que as Pessoas Têm Antes de Morrer”. Trabalhadora da saúde, na área dos cuidados paliativos, Ware relata os cinco principais arrependimentos das pessoas nessas condições. 

São eles:

“Eu gostaria de ter tido a coragem de viver uma vida fiel a mim mesmo, e não a vida que os outros esperavam de mim;

Eu gostaria de não ter trabalhado tanto;

Eu gostaria de ter tido a coragem de expressar meus sentimentos;

Eu gostaria de ter mantido contato com meus amigos;

Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz.”

Não precisamos chegar a tanto. Ainda estamos longe dos cuidados paliativos para chegar às mesmas conclusões. 

Enquanto ainda é possível, então, façamos essa releitura da vida, resgatando os ideais que ficaram lá no passado, afinal a vida acontece no presente, não no futuro e muito menos no passado.


 
 
 

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