A SEGUNDA PELE
- julioperezcesar
- 11 de fev.
- 2 min de leitura
A sobrevivência não basta!
Quando mais jovens almejamos algo maior e mais significativo para nossas vidas que, na ausência de recursos, tivemos de abrir mão em nome da sobrevivência.
Trabalhamos e acabamos deixando isso pra lá.
Mas as marcas ficaram. Ficou um pouco daquela nostalgia, como já disse num poema, “das coisas que não vivi”.
Vencidas as batalhas que a vida nos impôs e quando não mais precisamos das armas com que nos municiamos para enfrentá-las, descobrimos que essa nostalgia sempre esteve ali.
A nostalgia daquelas coisas que, em algum momento, deu sentido à nossa existência.
É disso que se trata quando falo de libertação.
Libertação dos conceitos que criamos para aceitar o que não pudemos mudar, das racionalizações que nos fizeram aceitar a renúncia dos ideais.
Não é fácil, pois muitos se põem nessa camisa de força e a libertação os deixa sem chão, sem rumo.
É como se elas tivessem de arrancar a própria pele, sem saber que essa não é a pele de verdade, mas a segunda pele que criamos para sobreviver.
Segunda pele da qual agora não precisamos mais, podemos abandonar e resgatar a autenticidade que deixamos lá trás, em algum lugar, à beira do caminho.
Isso é libertação!
Os filhos nos ajudam nesse processo, pois eles vêm cheios desses mesmos ideais e nos obrigam a fazer uma releitura de nós mesmos. Na medida do possível nos realizamos através deles, quando podemos ajudá-los a realizar seus sonhos. Mas isso também não basta. Um dia os filhos vão embora, viver a própria vida e a gente não pode fazer muito porque o caminho e o processo são deles.
Sempre me causou, por isso, uma certa perplexidade que alguém faça escola das renúncias que já fez, adote essa segunda pele como sua e nunca se questione se teria sido mesmo esse o caminho que escolheria não fossem as circunstâncias e a necessidade, tornando-se militante dela até o apagar das luzes.
Em 2017, a enfermeira australiana Bronnie Ware, lançou o livro “Antes de Partir: os 5 Principais Arrependimentos que as Pessoas Têm Antes de Morrer”. Trabalhadora da saúde, na área dos cuidados paliativos, Ware relata os cinco principais arrependimentos das pessoas nessas condições.
São eles:
“Eu gostaria de ter tido a coragem de viver uma vida fiel a mim mesmo, e não a vida que os outros esperavam de mim;
Eu gostaria de não ter trabalhado tanto;
Eu gostaria de ter tido a coragem de expressar meus sentimentos;
Eu gostaria de ter mantido contato com meus amigos;
Eu gostaria de ter me permitido ser mais feliz.”
Não precisamos chegar a tanto. Ainda estamos longe dos cuidados paliativos para chegar às mesmas conclusões.
Enquanto ainda é possível, então, façamos essa releitura da vida, resgatando os ideais que ficaram lá no passado, afinal a vida acontece no presente, não no futuro e muito menos no passado.



Comentários