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POLÍTICA, INSTITUCIONALIDADE E A BOMBA ATÔMICA

Passados pouco mais de 20 dias das eleições, diante da persistência dos movimentos golpistas que advogam qualquer coisa que possa garantir uma virada de mesa a favor do candidato derrotado, numa clara e flagrante quebra da ordem legal e institucional, com a leniência das autoridades responsáveis por coibir tal estado de coisas e apoios esporádicos aqui e ali dessas mesmas autoridades e personalidades públicas, já deve ter ficado claro para o campo progressista que não basta ter vencido a eleição, é preciso garantir a posse do presidente eleito e o respeito dos derrotados pela ordem legal e constitucional. Para isso não poderá contar apenas com a institucionalidade. Será preciso manter o estado de mobilização da militância com alguma forma de ocupação do espaço público e midiático com vistas a demonstrar que do outro lado das mobilizações golpistas estão os mais de 60 milhões de brasileiros que não aceitarão o desrespeito à sua escolha, eis que não houve – aliás como nunca - qualquer evidência de fraude no processo eleitoral. Fato já certificado pela Justiça Eleitoral e pelas instituições que acompanharam e fiscalizaram tal processo, entre elas, inclusive, as próprias Forças Armadas.

É urgente essa mobilização e ocupação do espaço público para que a voz também daqueles que legitimamente venceram o pleito faça se ouvir, sob pena de a grita dos perdedores ganhar vulto e suas falsas acusações, ares de realidade, com adesão de novos adeptos e a normalização de reivindicações absurdas, como a de anulação do pleito, de parte das urnas – como intenta agora o PL, com relação às urnas antigas -, de recontagem de votos e outros balões de ensaio com que vão se testando a temperatura da opinião pública aos intentos golpistas.

Em outras palavras, aos vencedores, diante da fragilidade das nossas instituições, não será dado ainda desfrutar do devido sossego que esperávamos com a eleição de Lula, após 4 anos do governo absolutamente nefasto que agora se despede. Será preciso ainda manter a vigilância e a mobilização para fazer o contraponto às mobilizações e ao caos que os perdedores pretendem instaurar no país. Algo parecido com que já em outra ocasião foi promovido pelo partido perdedor após o pleito de 2014, na figura do candidato derrotado, contra a presidente eleita, levando à inviabilização do seu governo e ao seu impedimento 2 anos depois, com o agravante de que a linha vermelha que se ultrapassava naquela ocasião com algum pudor e com a consciência da gravidade e ineditismo da medida, agora, com o bolsonarismo, essa linha vermelha tem sido cotidianamente rompida sem uma reação à altura das instituições.

Por que haveria de ser diferente caso se tentasse o golpe contra o resultado das urnas? Golpe que uma vez dado, seria mais difícil reverter, dado a leniência das autoridades e o apoio popular com que poderia contar.

Por isso, antes que se chegue a esse estado de coisas, há que os partidos da frente ampla que garantiram a vitória do presidente Lula se mobilizarem, chamando a população a defender, novamente, a democracia, pois a institucionalidade não será capaz de fazer isso sozinha. Só a mobilização popular em defesa da democracia poderá garantir que as instituições se mantenham em pé e esse movimento deve ser liderado por ninguém menos que o próprio presidente eleito. Só ele poderá chamar o povo em defesa das instituições e do estado democrático de direito. Não basta ter vencido as eleições. É preciso apaziguar o país, garantir a sua posse e iniciar o governo.

Compreendo que esses gestos não são da índole de Lula, o qual se pauta pelo respeito às instituições e à liturgia do cargo, mas é preciso que ele compreenda que do outro lado há um presidente que pouco caso faz das instituições e do cargo que ocupa e que para situações excepcionais, medidas excepcionais devem ser tomadas. A capacidade de mobilização popular do presidente eleito não pode ser subestimada. Basta um gesto de sua parte para seus seguidores atenderem a seu chamado.

Por outro lado, compreendo que essa medida, pela sua gravidade, talvez só venha a ser tomada em caso de evidente e concreta ameaça de quebra da ordem institucional. Há, no entanto, que se fazer alguma sinalização de Lula que ele poderá lançar mão desse recurso extremo caso necessário, como a bomba atômica desde sempre tem sido usada pelos países que a detém, mais como argumento dissuasório do que propriamente efetivo. Lula precisa continuar a aparecer para o povo que o elegeu e falar diretamente a ele, a par da organização do governo, a qual, contudo, pode, nesse momento, ser delegada a interlocutores políticos de confiança. Lula é a figura que galvaniza multidões e é com essa galvanização que terá de contar para garantir a sua posse e a institucionalidade, pois esta, por si só, não poderá se garantir. Lula, mais do que nunca, precisará ter o povo do seu lado para contrapor o povo que o bolsonarismo ainda consegue arregimentar.

Nesse sentido, é preciso que a aliança vencedora compreenda que o Brasil de 2022/2023 não é mais o Brasil de 2002/2003. Não há mais a civilidade que havia na época e o pudor que inibia o arroubo autoritário dos demagogos. De uns tempos para cá tornou-se legal, bacana, da hora ser tosco, grosseiro, estúpido e violento. É algo que lacra e mobiliza parcela expressiva da população. E essas pessoas estão dispostas a levar essa lacração às últimas consequências se for preciso. Lula precisa compreender isso e sintonizar o espírito do tempo, o Zeitgeist da política atual. Que ele precisa mobilizar os seus eleitores e mantê-los aquecidos para uma eventual “entrada em campo” se for necessária.

Mais do que nunca Lula precisa usar das mesmas ferramentas que a extrema direita soube usar muito bem desde que ganhou a centralidade do debate público: o contato direto com seu público via redes sociais. Para isso Lula tem cacife, carisma e conteúdo. As pessoas precisam saber o que está acontecendo diretamente da boca do presidente. Lula não pode mais ficar refém da institucionalidade, enquanto do outro lado a institucionalidade bate continência para seus demandos e arroubos autoritários. Mais do que nunca, Lula precisa efetivamente tornar-se um líder popular para fazer frente ao populismo do bolsonarismo.

Medida para a qual as instituições e a mídia sempre torceram o nariz, pois receiam um líder popular empoderado, livre das amarras dos pesos e contrapesos que garantem o bom funcionamento da democracia. Mas é preciso que se compreenda a gravidade do momento pelo qual o país atravessa e se dê ao presidente eleito esse voto de confiança, dado o seu inegável compromisso com a democracia e a urgência de defendê-la. Caso contrário, o risco de ruptura institucional continuará a pairar sobre nossas cabeças até 1º de janeiro de 2023 e ainda depois.

Até que ponto, no entanto, as instituições e entre elas o mercado – esse deus a quem nos dizem tudo devemos sacrificar – estará disposto a colaborar com o governo eleito nessa empreitada, considerando a histórica prevalência dos seus interesses, prevalência a que a mídia tradicional costuma emprestar ares de inexorabilidade?

Enfim, será nesse delicado equilíbrio de forças que Lula terá de jogar. De um lado, as ameaças do bolsonarismo, as chantagens de um Congresso fisiológico, as insinuações da mídia venal, alimentada pelas insanidades de um capitalismo rentista, alheio a preocupações sociais e ambientais de qualquer natureza. De outro, o extraordinário capital político que Lula conseguiu angariar com seu retorno triunfal à cena política nacional e, internacional, sobretudo, mediado pela trégua que a oposição e a mídia hegemônica concordaram em lhe conceder, dado a memória recente do que foi o desastre social, ambiental e sanitário do governo Bolsonaro. Será com esse capital político e com essa trégua que Lula terá de contar, nos primeiros lances do seu governo.

Governo, aliás, que começou tão logo apurado o resultado das urnas devido o descalabro orçamentário que o governo que sai legou ao país e que, como todo governo, já começa a sofrer os seus primeiros ataques embora sequer tenha assumido, o que demonstra que essa trégua é frágil e será exatamente proporcional à popularidade que Lula conseguir manter. Popularidade que, nesses tempos de redes e digitalização quase absoluta da vida e do debate público, passa necessariamente pela comunicação direta do presidente com seu público, como outrora o presidente que sai teve a inegável habilidade de fazer.

De forma despretensiosa, para não soar arrogante e desprestigioso com a classe política e com a mídia tradicional – outro ajuste fino que Lula terá de fazer –, será importante que a comunicação do governo inaugure para já um canal do comunicação direta do presidente e seus auxiliares mais diretos com a população - nas redes sociais, especialmente - sobre seus passos e realizações.

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