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O FASCISMO EM NÓS.

Há um anseio na sociedade, legítimo, por ordem, eficiência e progresso, sobretudo na gestão dos recursos públicos. Na medida em que a sociedade percebe que ela, afinal, é quem paga a conta, esse anseio só tende a aumentar. Quem calibra, contudo, a percepção que a sociedade tem sobre a gestão desses recursos são os órgãos de fiscalização, a Justiça e os partidos de oposição, devidamente respaldados, ou não, pela grande mídia. Assim, quando os órgãos de fiscalização, Justiça, oposição e mídia se unem numa cruzada para denunciar que uma gestão está fazendo mal uso dos recursos públicos, eles mobilizam esse anseio por ordem, eficiência e progresso de uma forma que põem os outros valores que dão sustentação a uma sociedade democrática em segundo plano. Em nome dessa cruzada quase santa, valores como o devido processo legal, o estado democrático de direito, direitos humanos e a própria democracia, para além da sua acepção exclusivamente formal e política, se veem ameaçados, e os homens encarregados de levar adiante essa cruzada passam a se revestir de uma qualidade quase santa. Qualidade da qual sobressai, nesse cenário, um atributo em especial: o da infalibilidade. De forma que tudo o que esses homens fazem passa a ser adornado por esse atributo, até mesmo quando haja algumas suspeitas, perplexidades e estranhezas em seus métodos.

Foi isso basicamente o que ocorreu no Brasil nos últimos anos com a Operação Lava Jato e, na sequência, a eleição de Bolsonaro.

Façamos, pois, um resumo histórico para contextualizar.

A partir da derrota da oposição nas urnas, em 2014, a Lava Jato ganhou um dimensão que até então não tinha. Ela passaria a ser usada pela oposição como um aríete contra o governo recém empossado, com apoio da opinião pública, devidamente insuflada pela grande mídia. Como o governo contava com uma base de sustentação em partidos fortemente implicados no escândalos de corrupção na Petrobrás – PMDB e PP – a oposição sabia onde tinha de apertar. Sem conseguir implicar a Presidente eleita, a oposição precisava tirar-lhe a base de sustentação no Congresso, atacando os envolvidos no escândalo, especialmente um personagem-chave: Eduardo Cunha, do PMDB, não por acaso o homem que havia sido eleito, em 2015, como Presidente da Câmara dos Deputados. Tão logo eleito, começou a minar o governo com suas famosas pautas-bombas, dado que este não atuava, como de não fato não atuou, para conter as apurações da Polícia Federal, ou seja, para “estancar a sangria”, na famosa fórmula Jucá.

O ápice da crise ocorre quando o partido do Governo, o PT, nega-se a barrar o andamento do processo por quebra de decoro, na Comissão de Ética da Câmara, contra o deputado. Cunha aceita o pedido de impeachment da Presidente Dilma Rousseff, por crime de responsabilidade, por esta ter atrasado os repasses aos bancos públicos valores utilizados para subsidiar os juros agrícolas, o bolsa-família e seguro-desemprego. Suposto crime decorrente da conjuntura econômica e que, até então, já havia sido praticado por outros governos, sem maiores consequências. No mínimo, uma banalidade diante dos escândalos que estavam vindo à tona, dos personagens envolvidos e da necessidade de dar estabilidade às investigações na figura central de uma presidente não envolvida.

Antevendo, contudo, no impeachment a possibilidade de voltar ao governo, a oposição alia-se ao vice traidor, Michel Temer, do PMDB, alheia à instabilidade que poderia provocar o afastamento de uma Presidente recém eleita e ao risco de embaralhar as cartas das investigações da Lava Jato, quando a bandeira da campanha era o combate à corrupção. Indiferente a tudo isso, a oposição insufla ainda mais a opinião pública contra a Presidente e, efetivamente, a derruba em agosto de 2016.

Quando, contudo, as apurações chegam até o líder da oposição, Aécio Neves e ao próprio Presidente Temer, que recém havia tomado o poder, juntamente com o PSDB, aquele anseio da sociedade por ordem, eficiência e progresso, a qualquer custo, amplifica-se e atinge de morte os grandes partidos que até então deram sustentação à frágil democracia brasileira, pós ditadura militar: especialmente ao PMDB e o PSDB.

Nesse cenário de desolação, o anseio da sociedade é acrescido de um elemento muito poderoso e que sempre foi habilmente utilizado pelos políticos para conduzir as massas: o medo. Medo este normalmente representado, no países do Norte, pelo inimigo externo, especialmente o terrorismo. Na ausência dessa figura, a sociedade brasileira dispunha de um precioso filão: o inimigo interno, na forma do desemprego, que a crise econômica já estava aumentando brutalmente, e a violência urbana, todos os dias explorada pelos canais de TV. Estava formado o caldo perfeito para galvanizar a opinião pública a aderir a quem quisesse se apresentar como o salvador da Pátria.

Antes, contudo, era preciso tirar do páreo aquele que poderia facilmente ganhar as eleições, graças ao bons governos que havia feito no passado e ainda estava na memória da população. Para isso a Lava Jato e seus homens santos – Deltan e Moro -, devidamente respaldados pela grande mídia e ungidos pelo dogma da infalibilidade, até mesmo perante as cortes supremas, cumpriram a sua maior missão: influenciar decisivamente no resultado das eleições presidenciais de 2018, com a prisão e a cassação dos direitos políticos de Lula, através de um processo eivado de irregularidades - provas sem consistências, apreciadas por um juiz parcial, como estão a demonstrar os recentes vazamentos dos diálogos entre a promotoria e o juiz do caso, através da série de reportagens do site The Intercept Brasil, em parceria com outros veículos de comunicação. Não obstante, o processo foi acelerado, para garantir a condenação e impedimento de Lula em segunda instância, num ajuste fino com o calendário eleitoral.

É nesse cenário que Bolsonaro, um ex-militar, tendo como vice um general da reserva, se apresenta para atender aos anseios da sociedade por ordem, segurança, eficiência e progresso. Sociedade que, escandalizada com as revelações da Lava Jato, devidamente amplificadas pela grande mídia, sem nenhum filtro, abraça essa figura sem qualquer consideração pelos demais valores que dão sustentação à vida em uma sociedade democrática, dado que essa figura nunca fez segredo do seu desprezo pela democracia - na acepção mais ampla do conceito, como o respeito aos direitos humanos, à ordem legal, à justiça social, à defesa do meio ambiente, etc - e a sua escancarada predileção pelo preconceito contra as minorias, pela violência e pela ditadura.

É nesse cenário, pois, que o fascismo se instala: quando a sociedade dá as costas aos valores fundamentais da democracia, em nome dos seus anseios por segurança, ordem, eficiência e progresso. Capturando esses anseios, o fascismo se propõe a dar resposta a eles, colocando, contudo, como condição, ainda que não explicitamente, o afastamento ou a suspensão das garantias e liberdades individuais, do estado de bem estar social, do respeito ao meio ambiente, aos direitos humanos e às minorias, da liberdade de imprensa, do devido processo legal, da presunção de inocência e todos os demais valores que dão sustentação à democracia, fazendo com que um grande parte da população concorde com a proposta, dando espaço ao surgimento de líderes populistas.

Dizer que a sociedade foi manipulada pela mídia, que não temos uma tradição democrática muito forte, que as pessoas foram enganadas pela oposição são explicações muito simples para problemas mais complexos.

Não podemos subestimar a inteligência das pessoas, embora haja efetivamente algum nível de manipulação. Mas a grande mídia perdeu a influência que tinha no passado e a oposição está igualmente com sua imagem e discurso vencidos, tanto que o PSDB praticamente deixou de existir na última eleição e o PMDB teve, de vez, suas vestes rasgadas em público, escancarando o fisiologismo que sempre o caracterizou, sem falar dos nanicos PP, PTB e outros. Quanto ao PT, apesar de toda a campanha de demonização que vem sendo feita, é ainda um grande partido, mas que precisa reencontrar seu rumo.

O fato é que o discurso de ódio só venceu porque todos nós temos níveis de aproximação e distanciamento do discurso da ordem, da eficiência e do progresso. E quando esse discurso é levado ao nível de que para se atingir essa ordem, eficiência e progresso tem de se cometer uma ilegalidadezinha aqui, um abusosinho lá, uma violaçãozinha dos direitos fundamentais acolá, em nome de um bem maior ou do famoso “combate à corrupção”, cria-se um precedente e se dá chancela a algo muito perigoso que circula pelos afetos mais baixo da sociedade.

Esses afetos vinham sendo cultivados na sociedade brasileira há, pelo menos, 6 anos – desde as manifestações de junho de 2013 -, quando a oposição percebeu que havia uma insatisfação muito grande e latente na população. Uma insatisfação difusa, que nem seus próprios protagonistas, na sua grande maioria formada por jovens, que pela primeira vez estavam saindo às ruas, sabem precisar. Insatisfação que, então, podemos reputar à crise de uma geração que estava chegando à idade adulta, num país que ainda tinha tudo a fazer, que prometia muito e entregava menos que se esperava, no tempo que se esperava, dado a ansiedade que costuma caracterizar essa faixa de idade. Quando essa insatisfação é capturada pelas denúncias de corrupção da Lava Jato, devidamente turbinadas pelas oposição afastada do poder há 3 mandatos presidenciais, com apoio da grande imprensa e pela crise econômica que se avizinhava, sob a batuta de uma Presidente inábil para conduzir a travessia desse momento difícil, cria-se as condições para a tempestade perfeita.

Temos, contudo, de ter clareza que parte desse monstro também reside em nós. Pois embora não concordássemos desde a primeira hora com as arbitrariedades que estavam sendo cometidas, ficamos perplexos e sem saber como reagir à cruzada santa que estava sendo feita no combate à corrupção. Perplexidade gerada por nossos sentimentos de insatisfação e nossos anseios por eficiência, ordem e progresso. Sentimentos esses que, também sendo nossos, nos imobilizou perante o que estava acontecendo no país. Ficamos anestesiados diante das revelações da Lava Jato e não soubemos como reagir. Afinal esses sentimentos foram mobilizados, num primeiro momento, para um propósito justo a todos os olhos: o combate à corrupção, mas que logo revelou sua verdadeira face: derrubar um governo legitimamente eleito. Quando nos demos conta, já era tarde. A sociedade já estava tomada por essa sanha, devidamente insuflada pela oposição que, no jogo do vale tudo para tomar o poder, também acabou sendo engolida por ela.

Nesse sentido, fica a lição: precisamos aprender a calibrar nossos anseios por ordem, eficiência e progresso com os princípios que regem uma sociedade democrática e dos quais não se pode abri mão, sob pena de comprometer não apenas a democracia, mas até mesmo a civilização. Prova é que estamos vendo acontecer em nosso país.

Em outras palavras, não podemos aceitar que, em nome dos anseios de ordem e progresso – não por acaso, o lema da nossa bandeira –, tolere-se a barbárie.

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