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O DILEMA DA MÍDIA COMERCIAL

Atualizado: 3 de jan. de 2021

A repercussão dos comentários infelizes dos jornalistas David Coimbra e Kelly Mattos, no programa Timeline, da Rádio Gaúcha, sobre o assalto ao Banco do Brasil no municípi

o catarinense de Criciúma, os quais tiveram como resultado diversos patrocinadores retirando seus patrocínios ao programa, por discordaram do teor dos comentários, expõe o dilema essencial da mídia comercial: atender aos interesses dos anunciantes e patrocinadores ou ao interesse público da informação isenta e imparcial e do debate com liberdade de expressão?

Com isso, não estou dizendo que esses dois interesses sejam sempre antagônicos. Ao contrário. De regra eles são coincidentes.

O problema, contudo, não é quando o conflito não acontece, mas quando ele ocorre, fazendo com que, de regra, o interesse público sucumba em face do interesse privado. É perfeitamente compreensível que no embate desses interesses, na arena privada, prevaleça o interesse da busca do lucro e da sobrevivência no mercado. Não é este o fulcro da questão. O fulcro da questão é o Estado brasileiro delegar a gestão do interesse público da informação e da liberdade de opinião, com quase exclusividade, à mídia privada. Em assim fazendo, o Estado, na prática, chancela a primazia do capital sobre o interesse público da informação isenta e da liberdade de opinião.

Como resolver esse dilema? Jesse Souza, em seu livro A Tolice da Inteligência Brasileira, citando Habermas, defende que o espaço público do debate, da informação e da formação da opinião pública, seja ocupado, no seu centro, por órgãos de Estado (de Estado, bem entendido, não de governo) que façam a gestão do bem público da informação, do debate e da liberdade de opinião. Liberdade esta, que como todo bem jurídico, há que ser tutelado exclusivamente pelo ordenamento jurídico, nunca pela censura prévia ou pelo constrangimento financeiro.

Não à toa diversos países com democracia consolidadas têm suas TVs públicas, tais como a RAI italiana, a BBC inglesa, a Deutsche Welle alemã, a France Télévision francesa, a TVE espanhola, a RTP portuguesa.

Em artigo publicado no site Observatório da Imprensa, “TVs públicas nos mercados globais”, o professor da Unisinos Andres Kalikoske e a graduanda em Jornalismo Paula Zamora, dão as linhas mestras do que seria, então, essa TV pública:

"Para que seja possível vislumbrar o conceito de TV pública, em primeiro lugar, deve-se compreender que tais canais não possuem fins lucrativos, visando alcançar audiência a partir do âmbito da cidadania. Não estão pré-dispostas, ao menos conceitualmente, na produção de conteúdos massivos, que conquistam grandes audiências como o telejornal local sensacionalista ou a novela das nove, por exemplo. Portanto, pode-se afirmar que as TVs públicas atuam na contramão do modelo hegemônico, que é o adotado pelas emissoras comerciais que sobrevivem de publicidade. Em segundo, torna-se necessário o entendimento de que a TV pública não visa concorrer com as demais emissoras, no que diz respeito aos conteúdos, formatos e padrões de produção. Mas buscam a complementação e a ampliação da oferta audiovisual existente no país, a partir de produções audiovisuais que, a partir do reforço da identidade nacional, procuram elevar o conceito de cidadania."

Da análise, pois, do artigo dos autores, fica claro que a TV pública:

Primeiro: não tem fins lucrativos;

Segundo: visa reforçar os valores da cidadania, em oposição ao do mero consumidor; e

Terceiro: não concorre com a TV comercial.

No âmbito, pois, de uma TV – ou rádio pública – as manifestações infelizes dos jornalistas David Coimbra e Kelly Mattos seriam, por certo, objeto de crítica por parte da opinião pública e, talvez, até acertadamente. Nunca, porém, da demissão indireta promovida por patrocinadores e anunciantes que, ao negar-lhes meios de vida (na hipótese de a empresa levar a efeito o desligamento desses profissionais, por conta desse fato), nivelam o debate por baixo, ao plano meramente do que é aceitável sob a ótica exclusiva do anunciante, sem a possibilidade do contraponto.

Para isso deve existir o Estado. Para garantir a diversidade dos pontos de vistas, puníveis apenas ao que excederem ao âmbito legal, não, porém, aos interesses econômicos da classe dominante, travestidos de um falso moralismo, incapaz de conviver com o ponto de vista contrário ao seu ou de entender a ironia do comentário promovido pelo jornalista. Jornalista que ora passa a ser acusado de esquerdista pela patrulha ideológica de extrema direita, quando de longa data é sabido que tal comunicador jamais integrou esse campo ideológico, muito menos o grupo de comunicação – RBS – que integra. Se o fosse, até seria compreensível o ranger de dentes da direita raivosa, mas em não o sendo, chega a ser patético o fogo amigo a que foi submetida a dupla.

Esse fato e a sua repercussão na opinião pública, tornam ainda mais urgente a instauração, na mídia hegemônica, de um espaço para o debate público onde os valores democráticos da tolerância, do respeito à opinião do outro (nos limites da lei, é claro) e da convivência com o diferente sejam cultivados, em oposição ao exclusivo espaço privado, onde as disputas são sub-repticiamente dominados pelo poder hegemônico do capital, levando a formação de falsos consensos e à intolerância com o divergente, quando é este, o divergente, dialeticamente falando, o motor do desenvolvimento.





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