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NOVAS ESTÓRIAS

Depois de algum tempo ausente, volto a publicar. Motivado pelo blog do meu amigo Paulo - nomadenomundo.blogspot.com, o qual recomendo - me senti desafiado a retomar algumas histórias há muito tempo escritas e que estavam na gaveta. Para ter uma idéia, esta sequer eu havia passado para o computa. Estava datilografada ainda. Escrevi-a em fevereiro de 2000. Praticamente não mudei nada de como ela foi concebida. Vai, portanto, aí uma nova história, ainda que nova ela seja apenas na divulgação. Um pequeno causo à la Fellini. Espero que vcs apreciem.

Um abraço. UM MUDO NA FARMÁCIA Gaurama é uma cidade pequena. Pequena e real. Encravada no norte o Estado mais meridional do Brasil, seria apenas mais uma cidadezinha do interior não fosse por uma particularidade que a distingue de todas as demais para mim: é minha terra natal. E é nela que se passa essa história, contada por meu pai, da última vez em que estivemos lá para visitá-lo.

Antes, porém, é preciso tecer algumas considerações sobre os hábitos de vida dos meus pais que pode lançar um pouco de luz sobre a peculiaridade de algumas histórias que costumamos ouvir dele e que distingue essa que vou lhes narrar de todas as demais: foi a primeira vez que a ouvimos, apesar de ter-se passado há muito tempo. Diversamente do que costuma se dar, pois os hábitos de vida dos meus pais não lhes permite trazer muitas novidades. De modo que ouvíamos com frequência a mesma história. Tanto que já sabíamos de cor muitas delas, exceto essa que pelo seu inusitado tínhamos certeza: era a primeira vez que a estávamos ouvindo. Uma história simples, enfim, de gente do interior, mas que na sua singeleza revela muito do lirismo e da inocência que os hábitos interioranos ainda conservam. Havia um mudo no serviço público local que fazia o serviço do lixo da cidade. Colega do meu pai, que era mecânico, era também colega de tantos outros mandriões que gostavam de brincar com o mudinho e dos esforços que este fazia para se comunicar. Aos gestos nervosos ajuntava os indefectíveis guturais “ dá, dá, dá” que lhe valeram o apelido: Dadá. Nas suas andanças pela cidade atrás do caminhão do lixo ou capinando o mato que emergia do vão dos paralelepípedos, Dadá e seus colegas encontravam muitas oportunidades de se entreterem com o movimento das ruas e o que se passava na cidade, mexericos e escaramuças do interior. Ao menos não ficavam como muitos em cidades grandes, enclausurados em seus locais de trabalho, perdendo o que uma vida ao ar livre e de observações pode proporcionar. Funcionários públicos estáveis, então, encontravam muitas ocasiões de se divertir entre uma parada e outra do caminhão do lixo ou escorados no cabo da enxada que, de instrumento de trabalho, transformava-se em instrumento de apoio e inspiração. Foi numa dessas ocasiões que os malandros decidiram pregar uma peça no mudinho, também ele um malandro ao seu modo, silencioso. Sua gestualidade desembaraçada e uma sem-vergonhice mal disfarçada pela expressão arteira e maliciosa encorajavam-nos a ainda mais a folgar com o atrevido mudo: mandaram-no comprar camisinhas na farmácia da cidade, naquele momento atendida só por moças, enquanto, do lado de fora, os mandriões esperavam para ver como o infeliz se desencumbia da sua missão. Não sei porque o mudo não relutou em pagar esse mico, se por bravata, se por ingenuidade, se por humildade e espírito de submissão, só sei que o mudo foi e uma vez no interior do estabelecimento podemos imaginá-lo tentando fazer se entender, do modo o menos embaraçoso possível, não só para ele, que parece só então deu-se conta do mico que estava pagando, como para as moças que não queriam acreditar que o mudinho não fosse o santo que as pessoas costumam achar que as outras são só porque elas tem alguma deficiência. E os amigos ainda tinham-lhe ensinado como gesticular para se fazer entender, do mesmo modo como o próprio mudo em outras ocasiões tinha-lhes mostrado como fazia. Usavam, portanto, da sua própria linguagem para testá-lo na frente das meninas, a ver se o malandro mantinha a galhardia com que em outras tantas vezes tinha até lhes aborrecido com suas história de bravatas mudo-sexuais. Gestos que consistiam basicamente disto: com o dedo aos lábios como a encher um balão imaginário, sopro e gesto depravado de enfiar o preservativo no pênis. Agir dessa maneira entre amigos, era uma coisa. Bem diferente era agir desse modo em público diante das moças do balcão. Mas o mudo não via como se sair dessa diante dos amigos que de fora o instigavam a continuar toda vez que ele, desolado, olha para fora em busca de arrego. - Vai, vai! – lhe faziam os malandros, fingindo estarem ocupados com o trabalho e não estarem dando importância a uma bagatela daquelas: comprar camisinhas. Enquanto o mundo se debatia em seu sofrimento. E eles a lhe atiçar: - Faz assim, óh – e lhe mostravam o gesto odioso que ele não tinha coragem de reproduzir na frente das moças e dos clientes. Por fim, irritado, cansado de se fazer por santo e ser mal entendido o mundo levou os dedos aos lábios, assoprou o balão imaginário e enfiou-o alegoricamente no membro, gesticulando diante das donzelas – umas nem tanto – horrorrizadas, mas iluminadas para o que afinal o infeliz queria. Lá fora a turma a se dobrar de rir da cena que o pobre diabo tinha protagonizado diante das moças e do público em geral. Difícil depois era dizer com que expressão o mudo saiu da farmácia: se de triunfo, de imbecilidade, de interrogação ou de safadeza e satisfação pela missão cumprida. Talvez, um misto de tudo isso. O certo, porém é que depois desse fato, o mudo se tornou outra pessoa, bem mais contida nas suas bravatas e demonstrações gestuais.

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