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MEMÓRIAS DE UM RATO DE LABORATÓRIO

Atualizado: 4 de mar.

Todos os dias, eu e meus companheiros somos submetidos, pelos de jaleco, a uma bateria de testes. É uma rotina longa e cansativa que há anos vimos sofrendo.  Muitos, em verdade, a ela já se acostumaram. Mas eu, assim como outros companheiros, reluto em me adaptar.  

  Aliás, de tudo o que nos acontece aqui, o que mais tememos é justamente isso: nos adaptar.  Pois não são os choques, o cansaço, o corre-corre por esteiras e labirintos que nos assustam. Assusta-nos a perspectiva de nos acostumarmos a isso e começarmos a encarar com naturalidade a rotina.  Afinal, nunca pensamos que um dia passaríamos por isso, e ninguém, por mais condicionado que esteja, está preparado para uma coisa dessas.    

É verdade que, mais jovens e ainda fora do circuito dos testes, podíamos ver o estado em que ficavam muitos dos nossos depois de uma semana de esforço contínuo; mas vivíamos ainda a ilusão dos primeiros anos. Acreditávamos que isso não iria acontecer conosco, que podíamos mudar o rumo das coisas, todas aquelas certezas, enfim, tão típicas da juventude.  

Mas, depois que isso se tornou uma realidade e que passamos a sentir na pele o que significa uma rotina dessas, já não temos mais tantas convicções. Resistimos, mas seguidamente vemos muitos sucumbirem.   Até há pouco pensavam e agiam como nós e, de repente, já não são mais os mesmos.  Vão perdendo seus reflexos, agindo maquinalmente, considerando isso, sem o perceber, como o destino inevitável de todo rato... E o que acontece? Botam-nos pra fora, pois já não respondem aos testes com a espontaneidade de antes.   

Engraçado, não? Justamente quando eles achavam que tinham se tornado bons no que faziam, os de jaleco os consideram viciados em suas respostas e, portanto, sujeitos a invalidar os testes. Tanto lhes custou se adaptar à crueldade dessas experiências e, quando o conseguiram, acreditando que seus algozes esperavam isso, tornam-se peças descartáveis, pois já não têm mais nada a oferecer. Tornam-se previsíveis, perdem a espontaneidade e acabam se dando mal.  

Mesmo os ratos mais resistentes acabam um dia se conformando, afinal, isto aqui é um laboratório e os testes não têm fim. Chega um ponto em que tudo se confunde em suas mentes e eles já não sabem mais o que é certo ou errado. Adaptar-se? Abandonar suas resistências? Aceitar a condição de ratos de gaiola? Ou continuar a lutar contra todas as evidências, acreditando em coisas que depois lhes parecerão sonhos juvenis? 

Mal sabem eles que é justamente graças a esses sonhos juvenis que alguma esperança ainda lhes resta. Pois, ao fim, eles acabam sendo postos para fora, e a liberdade, antes tão esperada, de repente, se torna uma ameaça. Afinal um rato sem reflexos, por sua própria conta, se torna uma presa fácil.  

Por isso, tentamos nos manter alertas, relutando em cair naquele estado que antecede à entrega total. Manter acesa a chama da esperança, nos motivando mutuamente com gritos de estímulo durante os testes mais exigentes e com histórias que muitos contam nos raros momentos de folga. Histórias que dão conta de um mundo do qual todos já ouviram falar, mas que ninguém conhece de verdade. Do mundo lá de fora! Afinal, de lá, rato nenhum voltou para nos dizer se ele existe de verdade. 

Fomos criados durante toda a nossa breve existência nesse ambiente asséptico, inodoro e incolor. Não sabemos nada do que pode ser a vida de um rato lá fora, mas muitos contam histórias que nos dão alento para continuar, embora não se saiba se elas são verdadeiras. De qualquer forma, temos que nos manter alertas e não nos entregar ao conformismo. E esses relatos, ainda que irreais, contribuem para não perdermos a esperança.  Por isso, já nem pensamos se eles são verdadeiros ou não. Acreditamos como quem tem dogmas e fixa a mente nesse mundo de venturas quando precisa superar os testes mais penosos.   

Muitos procuram ilustrar suas histórias com relatos de avistamentos de ratos perambulando pela sala durante a noite. Eu, de minha parte, não posso afirmar nada, pois nunca vi nenhum deles. Mas muitos juram terem sido acordados à noite pelo barulho sutil de suas pequeninas garras riscando o ladrilho, quando, com seus bigodes farejantes, violam o laboratório atrás de comida. Pois a comida aqui é farta, não sendo de todo improvável que ratos obrigados a lutar diariamente por seu pão consigam entrar. Ainda que seja difícil de acreditar que eles tenham conseguido, num laboratório fechado a sete chaves, isso são detalhes que a gente procura ter cuidado em não abordar.  Somos levados a crer em tais relatos, mais por simpatia por quem nos está contando do que por estarmos de fato convencidos. Trata-se muitas vezes de ratos em adiantado estado de debilidade, aferrados a essas certezas. Assim, temos que ter o cuidado para não lhes minar as forças, com dúvidas inoportunas. E, por dever de solidariedade, partilhamos dessas histórias como quem partilha o pão, dando um pouco mais de tempo a uma chama bruxuleante que ameaça sucumbir. 

No começo, chegamos até a montar guarda para nos certificarmos se essas histórias podiam ter algum fundo de verdade. Precisávamos de evidências. Mas tudo o que pudemos ver ou ouvir foram apenas indícios sugeridos por ruídos ou movimentos desconhecidos, próprios da noite, quando tudo se torna mais calmo e qualquer lufada de vento pode dar margem a fantasias de uma mente torturada.  Nada também que possa liquidar a questão. Pois nenhuma certeza conseguimos extrair dessas observações erráticas, conduzidas sem método.  Afinal, aqueles que dizem ter visto alguma coisa já têm uma boa idade e, ao longo de suas vidas, relatam-nos que foram apenas um ou dois avistamentos. De modo que, por mais que montássemos guarda uma vida inteira, bem poderia acontecer de nunca vermos nada. Como pode acontecer que um recém-chegado, no mesmo dia, tenha uma experiência dessas, liquidando com todas as teorias contrárias.  

Assim, acaba-se caindo no terreno da pura especulação e já não podemos mais afirmar nada. Do que resulta uma longa e estéril discussão, e, como já dissemos, procuramos não importunar em demasia aqueles que preferem acreditar nessas coisas. Entre eles, eu.  

Por outro lado, também sabemos que não vivemos a vida inteira nesse estado. Nossos ancestrais já foram livres, e a possibilidade de existirem ratos dessa condição no mundo exterior não é de todo improvável. Só pelo fato de nunca os termos visto vagando por aí não quer dizer que não existam. É que passamos tantos anos aqui confinados que já não temos mais certeza de nada. A rotina é uma grande mentira que acaba se impondo. E, por mais imbecilizante que seja, quando não se tem alternativa, acabamos acreditando nela. Afinal, precisamos conservar a razão, e não podemos a vida inteira acreditar em fantasias. 

Viu? Com isso também eu acabo como muitos de nós: adquirindo gosto por esses testes estúpidos a que somos submetidos todos os dias, ao corre-corre e aos choques. Acabamos construindo teorias edificantes sobre a importância deles.  Teorias criadas pela absoluta falta de alternativa, destinadas a apaziguar nossa consciência adormecida pelo estresse e pelo cansaço. Já não se pensa mais em resistir, em criar estratagemas mentais para não sucumbir e manter a esperança. Ao contrário: passamos a acreditar nessas estúpidas teorias que só depõem contra nós. E, quando estivermos bem conformados, gastos e extenuados, seremos postos para fora, lançados nesse mundo grande e hostil, durante muito tempo desejado, mas que já não nos serve para nada.  

Vamos querer voltar para a roda, o labirinto, os choques e a comida certa de todos os dias. Mas não podemos. Já não servimos mais. Estamos por nossa conta e risco, e o mundo acaba por nos devorar. Não há outra saída. Não temos tempo para nos adaptar à liberdade, com a qual somos premiados, mas não sabemos lidar. Torna-se uma ameaça e acaba mesmo nos custando a vida. 

 Aqueles que tentaram sobreviver lá fora, após uma vida de dedicação aos testes, ou foram abocanhados por um gato, ou pegos pelas garras afiadas de uma coruja. Quando não, pelas rodas dos veículos que, à noite, escutamos cruzar à toda velocidade pela autoestrada aqui perto.  

 Por isso, temos que resistir! É o que digo todos os dias para minha mente torturada e aos meus companheiros a ponto de sucumbir. Embora, também já não tenham mais colorido as minhas histórias...  O que dizer para um rato que todos os dias têm que correr centenas de metros no mesmo lugar, ou depois de uma sessão extenuante de choques?! Que dias melhores virão? Que história contar para lhe levantar o moral? Que esperança de uma vida melhor? Se ele, em sua curta vida nunca conheceu outra além desta que, assim como seus pais e avós, tem levado?!  

Chega um ponto em que as histórias inevitavelmente vão perdendo o encanto e a gente sente que está na beira do abismo. Já não sabemos o que é mais importante: resistir ou se entregar ao doce sabor de um último voo?  Resistimos, não obstante, mas já sem o entusiasmo de antes. É como se uma entrega mais profunda acabasse ocorrendo contra nossa vontade. Já não saberíamos como reagir, então, se os nossos sonhos de liberdade, de repente, se tornassem realidade.  

Mas voltemos a assuntos mais otimistas, afinal é para isso que resistimos, não é mesmo?! Temos que conservar em nosso íntimo um brilho de esperança.  Para isso temos nossos ritos. Quando nos reunimos, procuramos nos entreter, descobrindo peculiaridades uns dos outros.   

Não sei se vocês sabem, mas nós, os ratos, somos uma espécie das mais curiosas. Não podemos ver um semelhante sem que nos desperte a curiosidade. Queremos logo ficar sabendo quem é, o que faz, quais são seus hábitos. É incrível como nesses jogos conseguimos espairecer do nosso dia a dia e construir uma teia de relações capazes de nos transportar para um outro lugar. Os amigos são uma grande coisa! É com eles (e graças a eles) que conseguimos incrementar nossas forças.  Mas é deles também que, às vezes, divergimos.  

Há uma certa cultura da mediocridade em voga por aí, um nihilismo verdadeiramente assustador.  Uma nova geração de ratos achando que é besteira esse negócio de resistir. Eles acreditam que os testes são mesmo o nosso destino e que não adianta nada ficar questionando o que os de jaleco nos impõem.  Eles estão aceitando a perspectiva de uma vida curta, mas tirando dela o melhor que pode lhes oferecer, deixando de lado a luta e a resistência.  

No meu ponto de vista, isso é uma grande bobagem, pois esse é um modo de ver desagregador e egoísta. É a declaração de derrota antes mesmo de começar a batalha. Muitos não estão conseguindo enxergar um pouco além. O que está prevalecendo é só o imediatismo dos mais jovens com pressa de viver. Não acreditam mais em ideais. As grandes ideias foram relegadas a um passado que eles reputam morto.  Tá certo que muitas besteiras também foram cometidas em nome dessas ideias que depois se revelaram equivocadas. Mas, antes correr esse risco que viver uma vida medíocre. Afinal, o que um rato pode esperar depois de ter gozado tanto? A morte?!  

Aos poucos, acredito, isso vai mudar, pois ninguém fica jovem para sempre e eles haverão de sentir na pele o resultado do seu pensamento. Até lá, no entanto, muitos terão padecido. Mas vai se fazer o quê?! Temos que conviver com diferentes opiniões e é até compreensível que os jovens adotem essa filosofia.  

A vida, de fato, tem sido muito dura. É difícil você dizer para um jovem rato mal chegado à idade dos testes que precisamos nos poupar para uma quase lendária vida de liberdade. Toda vez que uma nova geração chega é a mesma coisa. A gente tem que entupi-la com essas histórias, quando ainda conservamos todos os nossos reflexos e nossa chance de sobrevivência seja maior. Daí a necessidade de nos pouparmos, não cooptarmos, retardarmos a satisfação dos nossos instintos.  

E as necessidades deles, como é que ficam? A pressa de viver, fruir os prazeres, poucos que sejam, próprios da idade?  

Quando se encontra uma rata, então, que valha a pena, a gente perde a cabeça. Já não se quer mais saber de histórias de um mundo melhor, da resistência, dos companheiros e da solidariedade. Queremos viver o amor e dar o melhor de nós nos testes.  

É assim que as coisas são e vão continuar sendo até que consigamos romper nossos grilhões.  

Quando isso acontecerá? 

Já nem nós, os mais empedernidos resistentes, podemos dizer.  

Às vezes até as nossas convicções dão espaço às dúvidas, e só continuamos a resistir (tenho que confessar) porque já faz muito que estamos nessa e não podemos simplesmente admitir que tenha sido tudo em vão. Precisamos continuar acreditando até que nossas forças aguentem.   

Os jovens, até admito que eles tenham outro pensamento. Mas nem por isso vou mudar. Há também muitos entre eles que têm dúvidas. Afinal tudo são crenças. Ninguém tem certeza de nada. O fato é que os ratos têm se arrebentado no trabalho e depois são postos pra fora, quando a liberdade já não lhes representa um prêmio, mas uma condenação. E essa não é uma perspectiva muito sedutora.  

 Sei do que estou falando. Já vi muitos dos nossos serem postos em liberdade nesse estado.  Os gritos de desespero, que invariavelmente se seguem, nos dão bem uma ideia do que acontece. 

E por que isso? Porque não conseguiram ver além desse mundo que os de jaleco criaram. Porque não conseguiram manter a chama acesa. Resignaram-se a essa vida achando que era tudo o que podiam esperar. Quando os puseram para fora estavam tão debilitados que não resistiram ao choque. O sol, antes tanto desejado, já não brilha para lhes aquecer, queima a suas peles e cega seus olhos desacostumados; o ar puro os sufoca; os odores naturais, antes tão desejados, tornam-se veneno para as suas narinas, e as irregularidades do terreno, armadilhas inesperadas. Estão finalmente livres, mas agora a liberdade nada significa, se não a perspectiva da morte antecipada.   

Não acreditaram que uma outra vida fosse possível. Uma vida maior e com mais sentido. Uma vida que só nós, que ainda resistimos, poderemos desfrutar.   

Não sabemos, contudo, até quando vamos conseguir resistir. 

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