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CRISE DE REPRESENTATIVIDADE: SINDICATOS, PARTIDOS POLÍTICOS, JUSTIÇA E GOVERNO.

A convocação frustrada da última greve geral, do dia 30/06/2017, promovida pelas centrais sindicais expõe o distanciamento dos dirigentes desses organismos com a base do trabalhadores. A convocação que tinha caráter eminentemente político, contra as reformas trabalhistas, da previdenciária e a corrução, acabou fracassando por uma falta de percepção dessas lideranças da gravidade do momento, quando a grande massa de trabalhadores está mais preocupada em manter o próprio emprego. Nesse sentido, a greve, como instrumento de luta contra estas pautas não é exatamente o melhor instrumento, pois o “inimigo” comum, tanto de patrões (ao menos do capital produtivo), quanto dos empregados é o Governo corrupto e ilegítimo que aí está. Dividir as classes da sociedade civil, opondo empregados contra patrões, para se opor à corrução e as pautas da reforma trabalhista e previdenciária, foi um verdadeiro tiro no pé das centrais sindicais, pois o fracasso da greve do dia 30 acabou dando ainda mais fôlego para o discurso do Governo. O que expõe, por outro lado, a crise de representação que, juntamente com a classe política, os sindicatos estão a experimentar nesse momento.

É preciso que tanto partidos políticos e os sindicatos entendam que a atual geração não se identifica mais com estas estruturas de poder, constituídas em outra época. Época em que não existia internet, redes sociais e a instantaneidade das comunicações. Hoje com um aparelho celular qualquer um se sente protagonista do próprio destino, escolhe o que quer ver e ouvir e se põe em contato com o que ocorre em outros lugares e culturas. Esse empoderamento abomina a ideia de ser conduzido, ideia que está na base da concepção da democracia representativa. Por consequência, a falta de identidade entre a base e os dirigentes, tanto sindicais, quanto partidários, é inevitável.

Isso se aplica também à administração da justiça e seus intermináveis procedimentos e, muitas vezes, falta de efetividade. Daí o sucesso de um juiz como Moro que toma decisões rápidas e eficazes. Pode se questionar o mérito delas, mas é inegável que Moro representa o novo, em oposição ao STF, como exposto na desastrada decisão dos Ministros Marco Aurélio e Fachin, também neste fatídico dia 30/06, quando o primeiro, negou a prisão de Aécio Neves e restituiu-lhe o exercício do mandato e, o segundo, liberou da cadeia Rocha Loures, o homem da mala de Temer e que logo mais poderia fazer a delação premiada, pondo de vez um pá de cal nesse Governo cambaleante.

Resta evidente, pois, que a sociedade civil andou mais rápido que as instituições, representadas pelos partidos políticos, sindicatos, justiça e governo. Instituições que precisam se reciclar, para restabelecer o diálogo com as suas bases, em nome da credibilidade.

Nesse episódio do dia 30/06, por exemplo, o que estava em jogo também para os sindicatos, junto com a bandeira contra a reforma trabalhista, era a defesa corporativa do imposto sindical, esse anacronismo que significa o sustento de muito sindicato que não representa ninguém e o desconto de um dia de trabalho por ano do trabalhador, seja ele sindicalizado ou não. Ao não abrir o diálogo com os trabalhadores sobre isso, as centrais perdem credibilidade e as convocações, como as de sexta-feira, em que se pretende utilizar a massa de trabalhadores, já fragilizada por um contingente absurdo de desempregados, como massa de manobra, não cola mais.

O recado que fica, pois, do dia 30/06 é claro. A sociedade já não admite, de parte a parte, o discurso demagógico e conservador da defesa dos interesses corporativos dessas instituições, pouco preocupadas, efetivamente, com a população, seja ela de que cor partidária for. Instituições que, se não mudarem, serão, inevitavelmente, atropeladas pela história, com os riscos inerentes a todo processo de ruptura institucional: a ascensão ao poder de líderes demagógicos, aventureiros e oportunistas, que podem nos levar a consequências imprevisíveis, inclusive à guerra.

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