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AS DUAS FACES DA CORRUPÇÃO.

Recebi no whatsapp outro dia um vídeo sobre a extração absurda de minérios de Serra Pelada, pela mineradora Vale do Rio Doce, privatizada de forma criminosa pelo Governo de Fernando Henrique Cardoso. Carretas e mais carretas bi-trem, com 80 toneladas cada uma, transitando 24 horas por dia, 7 dias da semana, por uma estrada construída exclusivamente para elas, rumo ao porto e, depois, para a China, in natura. E junto com o minério de ferro, quilos e mais quilos de ouro e outros minérios que sequer sabemos quais são.

Olhando esse vídeo, então, é possível constatar que a corrupção é apenas a ponta do iceberg. A corrupção é um crime menor, que possibilita outro, o verdadeiro crime contra o país: o roubo de suas riquezas. (Não estou afirmando, com isso que a venda da Vale tenha sido permeada pela corrupção, até porque no Governo FHC nada se investigava, então não saberemos mesmo. Mas não deixa de ser estranho que a empresa tenha sido privatizada muito abaixo do seu valor de mercado, junto com jazidas de valor inestimável.)

Ou seja, a corrupção é apenas um crime de meio. O fim é a expropriação da riqueza nacional, seja ela representada pelos minérios extraídos diuturnamente destas terras, sem controle algum, tampouco com algum beneficiamento, gerando renda e empregos aqui no país, seja no assalto puro e simples ao bolso da população, sob a forma de superfaturamento de quase tudo o que o Poder Público compra, ou mediante o subfornecimento, ou o fornecimento de produtos vencidos, serviços não prestados... enfim um sem número de modus operandi de levar a cabo o assalto ao dinheiro público.

Jessé Souza, no seu livro A Elite do Atraso, diz textualmente que se a corrupção fosse comparada a uma boca de fumo, o político seria o aviãozinho, ou seja, aquele sujeito, normalmente apenas um garoto, que leva a droga, em pequenas quantidades, até o usuário, e traz de volta o dinheiro pro traficante, ganhando por isso uma pequena comissão. O verdadeiro dono da boca, está na iniciativa privada que expolia, superfatura, subfornece ou simula que fornece. Esse é o crime principal!

A corrupção apenas propicia que isso aconteça e, portanto, é a menor parte. É o ingresso, vamos dizer assim, para esse circo de horrores. Circo que começa justamente quando o sujeito compra o ingresso, entra e passa a praticar no âmbito do Estado as maiores falcatruas. Porque o empresário que “compra” o ingresso, tem o salvo-conduto para perpetrar com o dinheiro público as maiores barbaridades, pois o aparelho do Estado que está lá para coibir isso, ficou na entrada.

É a fiscalização que não funciona, a contabilidade que faz vista grossa pro superfaturamento, o servidor que recebe a mercadoria ou o serviço e atesta o que não veio, veio menos, diferente do especificado ou do que não foi feito. É onde verdadeiramente se lucra. A propina, é apenas uma comissãozinha que o empresário paga para o político, o fiscal do contrato ou outro servidor-chave para favorecê-lo ou fazer vista grossa.

É dessa outra face da corrupção que a imprensa não fala. Fala só do porteiro que levou bola pra deixar o cara entrar, ou seja, da parte menor do problema. Da parte do leão, ela não fala. E não fala por que? Por muitas vezes envolvê-la diretamente ou aos seus anunciantes. E a corrupção, aquela do político ou do servidor é a única que aparece. O quanto o Estado perdeu por conta do superfaturamento ou da falta de prestação do serviço, isso não é contabilizado.

Com isso, a mídia dá a aparência de informar, formando a consciência nacional, mas a rigor está é deformando essa consciência, ao demonizar a política e o Estado. Em contrapartida, o mercado passa a ser o detentor de todas a virtudes.

De fato, o mercado é eficiente, afinal quem não o é com o próprio dinheiro? Quando envolve o dinheiro alheio, contudo, ou pior, o dinheiro público, a farra corre solta. Não quero, com isso, generalizar. Dizer que todos os empresários que negociam com o Estado cometem falcatrua, mas quando o sujeito paga propina pra vencer um contrato, ele está livre dos mecanismos de fiscalização do Estado para, aí sim, cometer a verdadeira corrupção, essa que lesa os Cofres Públicos e a população de forma muito mais agressiva.

A Lava-jato que veio com a promessa de mudar essa paradigma acabou se perdendo pelo caminho. Foi utilizada pela mídia golpista como bandeira para mobilizar a opinião pública contra um partido e depois para perpetrar o golpe. Desde então, tornou-se mero instrumento para atacar os inimigos políticos daqueles que assumiram o poder e para desmontar a indústria nacional, a mando do capital financeiro e internacional. Afinal, os que assumiram o poder blindaram-se com o foro privilegiado - com o STF e com tudo, como diria um dos próceres do golpe - para continuar a perpetrar as falcatruas que sempre praticaram, só que agora a favor do capital internacional – basta ver onde estão sendo construídas as plataformas de petróleo da Petrobrás hoje - levando o seu lá fora, onde é mais difícil rastrear. Para o povo, nada!

Em conclusão, enquanto não encaramos o problema de frente e deixarmos de cair no conto do falso moralismo, aquele que se escandaliza com o mil recebido pelo guarda da esquina e faz vista grossa ao milhão amealhado pelo empresário, o Brasil não irá para a frente. Porque o discurso moralista só serve para atacar os inimigos políticos, utilizando o aparato judicial para perpetrar a perseguição e criar cortina de fumaça para os próprios crimes.

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