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A POLÍTICA E O ÓDIO

A política, mais do que ciência, é uma arte, porque a política, mais do que apenas a razão, também mobiliza paixões e, nesse sentido, não há nada comparado aos embates, muitas vezes até físicos, que promove. Porque a política, como a arte de governar a cidade – para ficarmos na categoria dos gregos, seu berço de nascença –, acaba por afetar os interesses de todos. O político será o ser mais amado ou o mais odiado dos homens. E não há nada que mobilize mais os anseios humanos que este: o desejo de ser amado. Há, contudo, uma outra série de componentes envolvidos: o desejo altruístico de fazer o bem, a defesa de interesses, seus e de outros, o desejo de deixar um legado, o poder – ah, o poder! - nas suas mais amplas manifestações: o poder de fazer, o poder de ajudar, o poder de salvar e condenar. O poder é sedutor e sabe-se como ele exerce um fascínio sobre as pessoas, em especial sobre os homens que veem nele um instrumento da conquista.

Então, é inegável que a política mobilize paixões (afetos, para utilizarmos o termo contemporâneo), entre as quais também podemos destacar o ódio. No Brasil, então, nos últimos anos, esse tem sido o sentimento mais recorrente. E por que isso?

Na política as escolhas que os governos fazem afetam a vida das pessoas e essas escolhas necessariamente atenderão aos interesses de alguns, em detrimento dos outros. Interesses que podem ser legítimos ou não. Para ficarmos no terreno da normalidade, ou seja, partindo do pressuposto de que os interesses são legítimos, as escolhas para atendê-los, no entanto, podem ter preponderantemente motivação ideológica, causando revolta naqueles que se sentem prejudicados por não terem a mesma concepção de mundo daqueles que estão no poder. Mas isso, ainda, é do jogo democrático, pois a cada nova eleição, aqueles que se sentiram prejudicados tem condições de eleger alguém que pensa como eles. Quando, no entanto, os interesses atendidos não são legítimos, como ocorre, por exemplo quando há corrupção dos agentes públicos ou quando as regras do jogo democrático são violadas de forma sub-reptícia para que um grupo tome ou se mantenha no poder, essas duas situações geram ódio e frustração com a política. Sentimentos esses incompatíveis com a democracia, pois não há democracia sem política, sem agremiações políticas que disputam o poder democraticamente, ou seja, em pé de igualdade, com regras por todos aceitas e transparentes. Esses sentimentos alimentam o desejo por soluções autoritárias, baseados na força de um líder carismático que se apresente como infenso a esses vícios da política, especialmente da corrupção.

Foi justamente esses dois sentimentos que foram alimentados na população brasileira nos últimos anos: ódio e frustração e que levaram à eleição de Bolsonaro.

Façamos, pois, um retrospecto para saber como chegamos a isso.

A política no Brasil sempre mobilizou os afetos, mas nos últimos anos houve um recrudescimento dessa tendência, sobretudo porque em 2003 chegava ao poder um homem do povo, que desde o final dos anos 70 vinha alimentando o anseio de transformar o país. Após muitos embates e derrotas, esse homem do povo, metalúrgico em São Paulo, retirante nordestino e sindicalista, Luís Inácio Lula da Silva, finalmente chegava ao poder e, junto com ele, uma série de expectativas da população. E Lula não decepcionou! Foram anos de um crescimento a níveis chineses, de inclusão social, de distribuição de renda e um protagonismo na cena internacional verdadeiramente inéditos na história do país. Desempenho que lhe rendeu 2 mandatos e a eleição de uma sucessora, a primeira mulher presidente da história do país, Dilma Rousseff.

No entanto, após 4 vitórias eleitorais do Partido dos Trabalhadores, a oposição, sobretudo o arqui-inimigo PSDB, não mais se conformava em representar o papel de coadjuvante. Precisava apear o partido do poder de qualquer maneira e a desculpa perfeita já estava pronta: as apurações realizadas pela Lava Jato que desvendava uma rede de corrupção entranhada nas barbas do poder, ainda que a Presidente Dilma não estivesse envolvida. Mas lá estavam próceres do partido e aliados. Arrumada a desculpa – o combate à corrupção – faltava o crime. Tarefa elementar quando se quer derrubar um presidente de uma nação, afinal quem humanamente falando, tem condições de administrar um país das dimensões do Brasil, sem cometer aqui ou acolá, um deslize, administrativo ou de gestão financeira que seja. Deram jeito, pois, de encontrar um: as tais das pedaladas fiscais, com base no art. 11, inciso III, da Lei 1079/50 que regulamenta o processo de impeachment. Crime – se é que assim podemos chamar - de ordem financeira, representado pelos atrasos nos repasses dos recursos do Tesouro Nacional aos bancos estatais Caixa Federal e Banco do Brasil para saldar o adiantamento que estes bancos fizeram de recursos para cobrir despesas do governo, configurando suposta operação de crédito sem autorização legal. Mera operação contábil, perfeitamente sanável, dentro do exercício, mas para as súbitas santas da máquina pública, encabeçada pelo delinquente-mor, Eduardo Cunha, do PMDB, motivo mais do que suficiente para abrir processo de impeachment contra a Presidente Dilma. Tanto que, feito o serviço sujo, Eduardo Cunha foi preso por implicações nos escândalos da Lava Jato.

Para ficarmos no tema proposto, das paixões (ou afetos) que a política desperta, este cenário se tornou o palco perfeito por onde elas desfilaram, especialmente daquelas de que falávamos acima, da frustração e do ódio. A frustração veio com a revelação dos esquemas de corrupção instalados na Petrobrás e que desviaram milhões. Mas até aí ainda podíamos tolerar, embora não se esperasse isso do Partido que sempre havia pregado contra a corrupção. No entanto, as apurações estavam andando e a Presidente não estava implicada.

Contudo, isso não bastava, pois para a turma que já havia perdido 3 vezes e encaminhava-se para perder a 4ª eleição seguida, como de fato perdeu, teriam de transformar essas apurações em instrumento para a tomada do poder e implantação da sua agenda. Para isso, precisavam suscitar o ódio na população. Tarefa assumida pela Operação Lava Jato, especialmente pelo juiz e o procurador da causa que utilizaram o direito como instrumento de vingança, de perseguição e de promoção pessoal, mais do que instrumento de justiça. Com o apoio da mídia venal, que também tinha seus interesses, conseguiram transformar as operações da Lava Jato em um espetáculo que levaria ao impeachment de uma Presidente honesta e ao poder o Vice, notório corrupto de longa data, contudo tolerável, porque era permeável à agenda da turma derrotada, tanto que logo após Dilma ser apeada do poder, uma série de medidas de caráter anti-povo foram rapidamente aprovadas: o fim da destinação dos royalties da exploração do petróleo do pré-sal para a saúde e a educação; o teto de gastos que congela por 20 anos as despesas primárias do governo, ou seja, as despesas em serviços públicos e investimentos, como saúde, educação, segurança, meio ambiente, cultura e outros; a política de preços dos combustíveis da Petrobrás que foi atrelada aos preços do petróleo no mercado internacional e a redução em 50% dos percentuais de conteúdo local, ou seja, de bens e serviços produzidos no Brasil, que a indústria de óleo e gás devia observar para fornecer esses insumos para a Petrobrás. Medidas que, só para ficar com as últimas duas, fizeram os preços dos combustíveis dispararem nas bombas e a indústria nacional de óleo e gás ser praticamente sucateada.

Por fim, quando as digitais do líder da oposição, que havia começado essa campanha de ódio contra a Presidente Dilma, Aécio Neves, do PSDB, também apareceram nas apurações da Lava Jato, a população enxergou nisso a prova cabal daquilo em que sempre acreditara: que a política era suja, afinal os que acusavam também roubavam.

Das sombras onde estava, um obscuro deputado federal, capitão egresso do Exército do qual pediu para sair para não ser expulso por acusação de ato terrorista – por conta de um plano de explosão de uma bomba numa adutora de água por reinvindicações salariais - e que sempre teve no ódio a sua pauta principal, o ódio à democracia, às instituições e à própria política na qual entrou e colocou seus 3 filhos apenas como meio de vida, dado que o processo que sofreu nas Forças Armadas lhe vedaram e aos filhos o caminho do serviço militar, Bolsonaro, esse deputado enxergou nesse ambiente o cenário perfeito para alçar voos mais altos na política: a eleição para Presidência da República. Cargo para o qual se elege sem nunca ter participado de um debate, sem dinheiro – lícito – e sem tempo de TV, apenas através das redes sociais – com disparos em massa de fake News, a bem da verdade, financiados com dinheiro de empresas, vedado pela legislação eleitoral e não declarado nas contas da campanha – e com aparições extemporâneas nos noticiários pelas suas declarações polêmicas e abusivas contra negros, gays, mulheres, contra o meio ambiente e contra os opositores políticos no seu périplo pelo Brasil, o que reforçava a sua imagem de outsider da política, embora dela vivesse há mais de 27 anos.

Foi o triunfo do ódio na política. Ódio que é visceralmente incompatível com o fazer político, dado que este pressupõe o diálogo, o respeito aos adversários e às minorias, a busca do consenso, o viver harmônico com a diversidade. Valores que Bolsonaro nunca disse que defenderia para se eleger, pois essa nunca foi sua pauta. Sua pauta sempre foi outra, das soluções na base da força e da violência, e nas quais, no fundo, as pessoas votaram porque deixaram de acreditar na política, insufladas também elas pelo ódio.

Urge, pois, que desarmemos essa bomba de ódio que é Bolsonaro. Só conseguiremos isso, contudo, quando deixarmos de odiar também: deixarmos de odiar o PT porque este nos traiu, em nossos sonhos dourados de um país rico, próspero e livre da corrupção, como se isso fosse possível sem ter de negociar com outros partidos que não tem necessariamente a mesma agenda e como se o Partido também não fosse formado de pessoas que erram; deixar de odiar os gays, porque estes não vão transformar nossas crianças em gays com o kit gay que nunca existiu nas escolas e nem com a ideologia de gênero (mesmo se esse fosse seu propósito, basta resistir); deixar de odiar os defensores do meio ambiente porque não são eles que entravam o crescimento do país, ao contrário são eles que o promovem, quando o mundo cada vez mais valoriza essa pauta e é possível fazer o desenvolvimento sustentável da Amazônia; deixar de odiar as artes e as ciências porque elas, ao incentivar o pensamento plural, não são uma ameaça a nenhuma agremiação política, a menos que esta tenha uma pauta autoritária; deixar de odiar quem não pensa como eu, porque é na diversidade que se constrói a riqueza de uma sociedade, e a democracia mais do que a arte de obter o consenso é a arte de administrar o dissenso; enfim, deixar de odiar, simplesmente, porque não estamos sendo perseguidos por nenhum inimigo oculto, nem existe só ladrão na política. Muito foi construído por todos os governos que já passaram por esse país e a democracia é uma flor frágil que precisa ser preservada para garantir a todos uma vida digna e justa nesse país tão rico, mas ao mesmo tempo tão pobre, por conta, sobretudo daqueles não aceitam que, para viver numa sociedade justa e fraterna, ninguém precisa perder para outros ganharem. Todos podem ganhar juntos!

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