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COLETÂNEAS

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NA BORDA DA PISCINA

 

 

Com a pandemia e a popularização do acessório, os modelos de máscaras proliferaram no mercado. Há máscaras caseiras e profissionais. Há máscaras de tecido e de outros materiais, mais eficientes para contenção das gotículas de salivas que possam conter o vírus. Há máscaras de tecido de uma e duas camadas. Há máscaras de tecido grosso, outras, de tecido ralo demais. Há máscaras que prendem na orelha, há outras com tirantes que se prendem atrás da cabeça. Há máscaras que caem e as pessoas ficam arrumando, para cobrir o nariz, outras mais firmes, porém mais sufocantes. Há máscaras, enfim, para todos os gostos. Acabei por aderir ao modismo. Não podia ver um modelo diferente. Ia lá e comprava. Depois de um tempo, ficou claro que, como fazia com os chapéus, bonés e tocas que colecionava por causa de uma calvície precoce, formava uma nova coleção. No começo, no entanto, foi difícil me acostumar. Dificuldade de respirar, calor no rosto, nem os cheiros conseguia mais sentir direito. Mas, sem alternativa, tive de me adaptar. Não saía de casa sem o acessório e, no inverno, tornou-se até agradável, pois protegia do frio. Nos últimos dias, no entanto, a máscara tem aumentado o meu desconforto. O calor no rosto tem sido insuportável e a dificuldade de respirar se tornou ainda mais aguda, levando a uma baixa oxigenação no sangue, o que me deixa em um estado de profunda prostração. À noite, tenho a sensação de que mãos estranhas me tocam durante o sono, revirando-me de cá para lá, e que uma lâmina me rasga a garganta numa dor insuportável, causando-me uma sede que nem toda água do mundo pode saciar. Sem poder emitir som, não consigo pedir socorro. A sufocação aumenta até não conseguir mais respirar. É como afogar-se no seco. Esbaforido, desperto do pesadelo para deitarme de novo. De bruços, para aliviar a dor nas costas e a pressão sobre os pulmões. Só assim consigo pegar no sono novamente. Não sei, agora, qual a estampa da máscara que estou usando. Desde ontem não consigo levantar para me olhar no espelho, e essas pessoas que apareceram no meu quarto essa manhã, não sei de onde, me ignoram completamente. Será a do meu time do coração? Será aquela sacana, com estampa safada que comprei, há alguns dias, no sex shop? Ai, que vergonha! Ou será aquela do movimento antifascista com que fui à última manifestação contra o presidente? Espero, ao menos, estar fazendo boa figura. Sempre fui uma pessoa preocupada com a aparência e, agora, sem poder cuidar dela, dependo do gosto alheio, embora, nessas circunstâncias, isso já não tenha a menor importância. Quanto à máscara que estou usando, ela vem com um acessório que vai do nariz aos pulmões, atravessando a garganta como uma lâmina, provocando-me profunda dor e uma sede insuportável. Mas, diferente das outras, que a gente usava só porque era obrigado, agora eu sei: essa máscara é minha amiga, ela é a borda da piscina que impede de me afogar.

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