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COLETÂNEAS

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ESTRADA MALDITA

 

I

                                                                                         

A noite, sobre a estrada, estendia-se calma e silenciosa a minha frente. A lua transitava entre as nuvens. Àquela hora, pouco movimento.

Estava contrariado por ter de voltar para casa depois de um dia cheio, mas ela foi irredutível: não queria que eu passasse a noite fora.

Por isso, depois da solenidade, peguei a estrada.

Não estava acostumado a dirigir a uma hora daquelas.

Já era madrugada. Apenas a primeira hora da madrugada. Instante  a partir do qual, no entanto, a noite se torna mais perigosa. Estamos em seu pleno domínio e ainda falta muito para o amanhecer. É quando as feras matam na floresta, após uma aparente calmaria. Os ladrões preferem, depois que todos foram dormir e as almas sem descanso vagam, sem turbações.   

 Ao me dar conta disso, uma sensação estranha tomou conta de mim. Eu estava sozinho, mas era como se uma presença me acompanhasse. Uma presença maligna, nascida das sombras e da solidão.

Cenas de filmes e leituras diversas começaram a passar por minha menta cansada.

De repente, era como se essa presença tivesse se materializado ao meu lado, no banco do carona ou atrás, do passageiro.  

Fixei-me na estrada, evitando voltar o rosto para o lado. Temia que se o fizesse  daria substância ao meus temores. Aumentei o volume da música, procurando dissipar essas imagens e pensamentos. Por fim, para provar pra mim mesmo que aquilo não passava de um produto da minha imaginação, passeei o olhar para o lado e atrás.  

Ao fazê-lo, não tive tempo de reagir. Havia alguma coisa caída no asfalto, depois da curva. Parecia um corpo. Era grande. Houve uma batida no pneu esquerdo e embaixo. Por sorte estava com a camionete. A altura e a estabilidade do veículo permitiram-me retomar o controle e seguir adiante. Se fosse um carro menor teria me acidentado.

O que era aquilo?! 

Pensei em parar, mas a estrada estava deserta e àquela hora achei que não seria uma boa ideia. Lá fora estava frio e escuro. As nuvens haviam escondido a lua. Temia não enxergar nada e ainda me expor ao risco. Também já havia me afastado muito.

Pelo retrovisor não conseguia ver nada. À minha passagem, o breu fechava-se sobre a estrada.

Teria atropelado alguém?!

Talvez um bêbado que tivesse caído sobre a faixa ou alguém que agonizava após uma primeira colisão. A ideia de haver passado sobre o corpo de uma pessoa, viva ou morta, me perturbava.  

Contudo, a solidão e a madrugada arrefeciam meus escrúpulos, fazendo-me crer que aquela noite não teria fim, nem aquela estrada e que ambas me afastariam do que quer que tivesse acontecido ali. Ninguém ficaria sabendo.

Por outro lado, um resto de razão ainda me dizia que era absurdo pensar daquela maneira. Eu podia ter atropelado alguém e esse alguém teria nome, uma história e pessoas queridas que o esperavam em casa. Como me esperavam também.

Mas o Mal parecia presidir aqueles acontecimentos.

 

Acabei tocando em frente, procurando fixar meus pensamentos em casa, no quanto ainda faltava para chegar e aquele corpo afinal não teria passado de um bicho, um cachorro grande, já atropelado, como costumamos ver na estrada. 

Voltei meus pensamentos para a solenidade. Eu havia sido convidado para ser jurado de um concurso de oratória e declamação em Chapecó. Não sabia que ela ia estar lá. Não havia me dito que iria, quando a convidei. Só depois fui saber que ela tinha ido. Não a vi na plateia. Os holofotes estavam voltados para o palco. Quase não víamos o público na obscuridade. Eu estava concentrado nas apresentações. Estava ali para julgá-las. Faziam parte da banca, além de mim, duas mulheres que eu não conhecia, as quais achei-as esnobes. 

Na saída, recebi uma mensagem no celular: “Adorei ver você!”

Não quis retornar, pois havíamos combinado que não trocaríamos mensagens nem ligações que pudessem nos pôr em risco. Temi que ela já estivesse em casa. Falaria com ela depois, mas fiquei decepcionado por ela não ter vindo falar comigo.

Sabia o quanto ela sofria. Infeliz no casamento, vivia há anos com um homem que não a valorizava.

Tinha sido o meu primeiro amor. O destino nos separara. Nos reencontramos após muitos anos, através do Facebook. Começamos a nos corresponder até que o reencontro foi inevitável.

Acho que ela era minha verdadeira alma gêmea, mas ainda alimentava a mágoa por ela não ter ficado comigo. Antes de ela se casar,  eu a havia procurado, depois de algum tempo. Eu havia saído de Chapecó para estudar em Porto Alegre. Minha situação havia mudado e podíamos ficar juntos, mas ela hesitou e as coisas acabaram tomando outro rumo. Agora mais uma vez o destino nos aproximava, mas... era como se eu a quisessse punir por ter me trocado. E eu tinha uma família. Não podia jogar tudo pro alto. 

Levei ainda uma hora para chegar.

Em casa, sob a luz da garagem, chequei a frente e a lateral da camionete. Nada, aparentemente.

Eloísa já dormia. Deitei-me ao seu lado e a abracei para confortá-la de que havia chegado bem. Contudo, não conseguia dormir. Estava ainda com a adrenalina da estrada e contrariado por ter atendido ao capricho dela que não queria passar a noite sozinha.

Tive um sono agitado. Sonhei que atropelava alguém que antes do impacto levantava a mão para se defender. Acordei com a batida da porta do quarto, fechada por uma lufada de vento.

Antes de trabalhar, fiz mais uma checagem do veículo. Tirei-o da garagem, para conseguir ver melhor. A imagem do sonho recente aumentava a ansiedade.

Embaixo do carro, havia sangue e, na proteção do motor, alguma coisa havia aderido. Pareciam pedaços de pele e tufos de pelo. Ou seriam de cabelo? Tinha que mandar lavar o carro, mas antes queria checar aquilo melhor.

De tarde, no trabalho, ainda na garagem do prédio, com umas luvas de látex compradas no caminho, recolhi parte do material que havia aderido na proteção do motor: restos de pele e tufos de pelos. Pretos e curtos. Tanto poderiam ser pelos de animal, como cabelo humano. Não era possível dizer do que se tratava. Achei que um exame visual aplacaria minhas dúvidas, mas aquilo só fez aumentá-las. Tinha de fazer um exame de DNA. Temia, contudo, levantar suspeitas.

Usei as próprias luvas para guardar o material, invertendo-as na hora de tirar, com a amostra recolhida por dentro. Depois, deixei o veículo no posto para lavar.

 No fim do dia, quando fui buscá-lo, o responsável pela lavagem me entregou as chaves com um ar de desconfiança:

  • Atropelou um bicho grande, hein, doutor?

  • Ahn? Como?

  • O carro... tava todo sujo de sangue por baixo.

  • Ah, sim, um cachorro, ontem à noite, no asfalto.

  • Ahn, sim. Mas tinha uma coisa ali que não parecia de bicho, não.

  • Como assim?

  •  Uns restos de pano. Pareciam uns rasgos de roupa. A menos que o bicho tava de roupa, não é mesmo, doutor? – disse me estudando.

  • É, vai saber. Hoje em dia esse pessoal tem mania de por roupa até em bicho.

  • É...

Dei-lhe um sorriso amarelo e peguei minhas chaves. Precisava de uma dose dupla de conhaque para esquecer aquilo.

No bar, ao consultar as horas no celular, havia uma mensagem.

Era ela.

“Por que você não me respondeu?”

Ela se arriscava. Àquela hora o marido já estaria em casa e ela havia me mandado a mensagem há mais de uma hora. Havia esquecido dela. Devia ter-lhe enviado um email, de tarde.

Apaguei a mensagem, registrando mentalmente que tinha de lhe mandar uma resposta. 

Cheguei em casa um pouco alto. Eloísa notou:

  • Você bebeu?!

  • Parei para tomar um conhaque. Hoje o dia foi punk no escritório.

  • Uhn!

Ela não gostava quando eu bebia. Lembrança dos tempos de solteiro quando eu aprontava depois de beber. Há muito tempo eu não fazia mais dessas, mas as marcas tinham ficado.

  • Você mandou lavar o carro?

  • Mandei, por que?

  • É que ele está pingando e molhou toda a garagem.

  • Ahn, não havia notado.

Será que deixaria marcas de sangue?

Devia ter sondado mais o cara da lavagem. Acho que ele não me contou toda a verdade. Avisaria a polícia? Normalmente a polícia tem contato nesses lugares. Quando acontecem atropelamentos, as pessoas lavam o carro. É a primeira reação e a mais fácil para descobrir os responsáveis. Mecânicas e chapeações também são investigadas. Já me imaginava sendo levado de casa algemado. As notícias correriam e minha reputação estaria arruinada.

Divagava quando Eloísa me chamou para jantar. Estava estranhando minhas atitudes desde a véspera. Eu andava muito pensativo e alheado.

  • Aconteceu alguma coisa?

  • Não, por que?

  • Não sei, estou te achando estranho. Está ainda chateado por eu ter te pedido pra voltar ontem.

  • É claro, né! Dirigir de madrugada não é pra ninguém. Ademais, já não sou um guri e ainda por cima esse atropelamento.

  • Atropelamento?!

  • É, desse cachorro. Quase fui parar fora da estrada.

  • Mas foi grave assim? Não sabia... por isso tu mandaste lavar o carro? Tinha muito sangue?

  • Tinha. Pelo que o cara da lavagem me falou.

  • E como é que foi.

  • Ele tava no meio da pista. Não deu pra desviar.

  • Mas era um cachorro mesmo?

  • Por que essa pergunta?! É claro que era!

  • Não é que de noite... sabe como é que é? É difícil de enxergar.

  • Você está querendo insinuar alguma coisa?

  • Não! Como assim? Por que essa agressividade toda?

  • Ah, também, já não basta ter-me feito voltar, agora ainda essa desconfiança.

  • Mas que desconfiança, homem? Do que tu tá falando?

  • Nada! Vou tomar um banho!

Tinha de decidir o que fazer. Aquilo estava escapando ao meu controle.

No dia seguinte, fui até o local do ocorrido.  Ficava a uns 80 quilômetros. Sai logo de manhã. Sabia onde tinha acontecido. Conhecia bem aquela estrada. Ficava depois de uma curva, sob algumas árvores que margeiam o caminho, fazendo uma espécie de cobertura sobre o asfalto. Havia sol. Podia fazer uma verificação completa.

Sobre os asfalto, marcas de sangue. Senti-me mal ao constatar a materialidade do ocorrido. Sob a luz do sol, aquilo ganhava uma nova dimensão: eu podia ter matado alguém e aquilo havia acontecido há apenas 2 dias. 

Procurei no entorno algum sinal de vida, alguém que pudesse ter presenciado aquilo, ter sido o primeiro socorro da vítima, mas nada. Não havia evidências de uma viv’alma. A cidade mais próxima era Erechim. Podia ir até lá, investigar, afinal tinha o dia pela frente.

No meio do caminho, parei num posto, com sinal wi-fi, para enviar uma resposta a ela. Pensei no que dizer. Talvez pudesse vê-la, afinal Chapecó não estava longe. Seria uma oportunidade para desabafar com alguém. Éramos, por assim dizer, cúmplices: enganávamos nossos parceiros. Isso nos dava uma outra dimensão de possibilidades.

Mandei a mensagem. Precisava esperar o retorno, antes de tomar a estrada novamente e decidir meu destino.

Não demorou a resposta. Era positiva.

Combinamos de nos encontrar no posto de combustível no centro da cidade. Ela não dirigia. 

Aquilo iria me aliviar. Estava começando a enlouquecer com essa história. Não podia lidar com isso sozinho. E com ela, sentia-me estranhamente à vontade para isso.

  • O que te deu em vir no meio da semana? Tens compromisso na cidade?

  • Precisava te ver. Por que não vieste ao meu encontro naquela noite?

  • O lugar estava muito cheio. Conheço muitas pessoas aqui. Poderiam nos ver juntos.

  • Uhn.

Éramos dois clandestinos. Podíamos andar por terrenos que outras pessoas normalmente evitam. Depois de fazermos amor, contei-lhe o que havia acontecido, as minhas preocupações. Embora eu fosse advogado, precisava ouvir o julgamento de uma pessoa comum. Qual o sentimento que ela tinha sobre o fato. Ela era, por assim dizer, o meu tribunal do júri.

  • Acho que você deve esquecer isso. Foi um acidente.

  • Sim, mas eu poderia tê-la socorrido.

  • Você temeu por sua segurança, e ademais tu achou que havia atropelado um animal.

  • Mas o fato é que não era um animal. Era uma pessoa!

  • Mas tu não sabia disso.

  • Mas agora eu sei! Como é que eu convivo com isso, em paz?

  • Você se questiona demais. Você deve esquecer e tocar tua vida. Não há alternativa.

  • Há.

  • Qual?

  • Eu me entregar. 

  • Eu não sabia que você tinha esse tipo de pensamento.

  • Que tipo?

  • Tão ético?

  • Eu sou um advogado. Tenho que defender a lei.

  • Não, você tem que defender o teu cliente.

  • Mas eu vivo da lei e eu devo respeitá-la. Se eu agir diferente é como seu dissesse pra todo mundo que descumprir a lei é legal.

  • E o que nós estamos fazendo, não é de certa forma o pior dos descumprimentos legais – ou morais – que o seja: a traição?!

Preferi não responder, pois sabia que ela tinha razão. Quem era eu, afinal, para vir manifestar pruridos de consciência numa hora dessas?

Voltei para casa aliviado por ter dividido com alguém aquele fato. Mas as zonas nebulosas da minha vida ainda estavam lá. À espreita.  

Acabei me atrasando para chegar em casa. Calculei mal o tempo de retorno. Havia congestionamento na entrada de Passo Fundo.

  • Por você andava?

  • Trabalhando, ora!

  • Mas eu liguei pro escritório e o pessoal disse que você não apareceu por lá hoje.

  • Tive que atender um cliente fora de Passo Fundo. Passei o dia envolvido com isso.

  • E pra quê o celular desligado.

  • Fiquei sem bateria.

  • Você anda muito estranho ultimamente.

Havia pensado em tudo. Embora Eloísa estivesse desconfiada, não queria contar-lhe o motivo da minha aflição. Temia fazê-la minha cúmplice.

A minha tentativa de investigação não dera em nada. Uma mancha de sangue no asfalto, afinal, não queria dizer muita coisa. Poderia bem ser de uma pessoa ou de um animal. E em Erechim não tinha feito qualquer investigação.

Meu juízo acabou sendo obscurecido por ela. Pela possibilidade de vê-la novamente e de desabafar com alguém. Precisava ligar para o cartório de Erechim, saber se alguém havia registrado algum óbito por atropelamento nos últimos dias.

 Até lá, tinha que acalmar Eloísa e isso passava por fazer amor com ela. Temia, no entanto, brochar na cama, depois daquela tarde.

A situação estava ficando insustentável.

Liguei para Erechim no dia seguinte. Não tinham registro de óbito por atropelamento por aqueles dias, mas o atendente me alertou que a polícia estivera ali informando que havia um corpo não identificado no necrotério. Não soube dizer a causa da morte, mas se soubessem de alguma coisa, deveriam avisá-los, pois talvez um familiar aparecesse procurando informação.

  • O senhor, por acaso, é familiar dessa pessoa?

Desliguei em pânico.

Estava tudo esclarecido! Eu havia matado alguém! Alguém não identificado, mas ainda assim alguém. O bastante para me tornar um criminoso.

Por que eu não havia parado o veículo aquela noite? Tudo poderia ter sido esclarecido. Mas a madrugada e a solidão fizeram-me crer que eu ficaria impune. A impunidade, no entanto, durou apenas o tempo daquela noite. Com o dia, tudo se esclareceu.

Eu precisava me entregar.

II

 

Hoje, respondo ao processo em liberdade. 

 

III

Alguns dias depois, encontrei as luvas de látex sob o banco da camionete, com a amostra que havia colhido no dia seguinte ao acidente. Não me lembrava desse material. Pensei em jogar fora, mas então, já sem o receio de ser pego, pedi o exame de DNA.

O resultado acaba de chegar. Hesito antes de abrir o envelope. Algo me diz que  o Mal, apenas pressentido naquela noite, ainda continua a presidir a esses acontecimentos. Abro-o, afinal.

O teste é categórico: não humano!

 

Fim

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