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COLETÂNEAS

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VIRTUAL

 

 

Nos conhecemos pela internet. Ela era professora, eu escritor. Tínhamos em comum o gosto pela literatura fantástica. Trocamos durante algum tempo impressões sobre nossos autores favoritos, Poe e Kafka, respectivamente.  

A Jornada Nacional de Literatura, que aconteceria por aqueles dias, acabou se tornando a oportunidade perfeita para nosso encontro deixar de ser apenas virtual.   

Armado o Circo da Literatura, dirigi-me até a Universidade, onde o evento bianual das Letras estava começando. Havíamos marcado de nos encontrar na lona principal, mas acabei me atrasando por causa do movimento.   

Em lá chegando, o evento já havia iniciado. Na entrada, apenas os seguranças e os acordes da música das apresentações.  Imaginei que ela não quisesse perder o show. Já havia participado em outras ocasiões e sabia como aquele momento era mágico. Decidi aguardar do lado de fora, pois não tinha ingresso, e como autor local, tinha sido solenemente ignorado.

 Mandei-lhe um whatsapp , avisando-a que estava ali. Não tinha certeza, contudo, se ela iria conseguir ler. Na dúvida, mandei-lhe também um SMS.

Distrai-me com a programação paralela do evento, espalhada pelo campus. A tarde transcorreu sem que eu me desse conta. Quando dei por mim e voltei à lona, o evento já havia terminado. O imenso espaço da lona do circo, agora, com aquelas mais de 5 mil cadeiras plásticas, brancas e vazias, sobre o campo de brita, na semiobscuridade do entardecer, era a imagem da desolação.

No celular, uma mensagem: Estou indo embora! Um pouco antes: Onde você está?

Ela tinha vindo de ônibus, com o colégio no qual lecionava em Veranópolis. Àquela altura, já devia estar longe.  Martirizei-me pela distração. Tinha perdido a hora acompanhando os debates do Encontro dos Autores Gaúchos. O celular não havia vibrado.  

Respondi-lhe a mensagem lamentando o ocorrido e me desculpando.

Mas ela me disse que não havia problema. Amanhã viria de novo, acompanhando os alunos. Marcamos no mesmo local.

No dia seguinte, acabei me atrasando novamente na entrada do campus. Parece que todos haviam escolhido o mesmo horário para se deslocar do centro até a Universidade. Perdi uma boa meia hora no congestionamento para atravessar a BR 285, que separa o campus da cidade.

Mandei-lhe uma mensagem: Vou me atrasar. Não perca a programação por minha causa. Quando chegar lhe aviso.

Ao chegar, a lona já estava cerrada para as apresentações. Enviei-lhe uma nova mensagem: Te espero na saída.

Voltei para o carro, pois ainda teria uma duas horas até o fim das apresentações. Acabei pegando no sono. Quando acordei, já escurecia. Corri os olhos na tela do celular. Nada! Estava sem bateria, e a lona de circo, abandonada, balançava ao vento do entardecer.  

Que raios de má sorte era aquela para nada estar saindo como era de se esperar?!

Em casa, depois de conectar o aparelho na energia, chequei as mensagens: Não estou te encontrando. Mais tarde: Parece que nos desencontramos de novo.

Enviei-lhe mil desculpas e marcamos mais uma vez para dali dois dias. O último da Jornada.

Desta vez, contudo, me precavi. Cheguei antes da abertura dos trabalhos. Postei-me na porta da entrada, junto à lona principal. Embora não nos conhecêssemos pessoalmente, julguei que poderia reconhecê-la na multidão. Por precaução mandei-lhe uma mensagem dizendo como eu estava vestido e onde me encontrava – no lado direito do portão principal. Sem resposta.

Aquele mar de pessoas acabou entrando e ninguém minimamente parecido com ela havia passado por mim. Mas eu poderia estar enganado, afinal eram em torno de 5 mil pessoas, a maioria delas professores da cidade e da região.

Tentei lhe ligar, mas o telefone estava na caixa postal e as mensagens do whatsapp indicavam que não tinham sido visualizadas. Esperei ainda um hora, mas acabei desistindo.

À noite conseguimos fazer contato. Haviam tido um problema na estrada, justo num local sem sinal de celular. Retornaram para Veranópolis. Recém havia chegado.   

Concordamos que aquilo não podia ficar assim, afinal de contas Veranópolis não distava muito de Passo Fundo e eu poderia encontrá-la no fim de semana. Ela me deu o endereço e no sábado fui para lá.

Apertei o interfone com o número do apartamento que ela havia me dado. Não quis me anunciar pelo celular para lhe fazer uma surpresa. Contudo, aquele parecia não ser o número correto – 303 -, pois a pessoa que me atendeu disse que não conhecia nenhum professora Raquel. Morava naquele apartamento há mais de ano, nem sabia de alguma vizinha com essa identificação.

Liguei para ela mas ninguém atendia, como se o telefone estivesse sem bateria. Não chegava a tocar. Caía direto na caixa postal. Deixei recado. Circulei pela cidade esperando retorno. Mas durante mais de uma hora, ninguém respondeu.

Ela poderia estar no colégio onde trabalhava.  Escola Regina... não lembrava o nome completo. Contudo, por se tratar de um colégio público, talvez não tivesse expediente, mas não custava dar uma conferida.     

Pra minha surpresa, a escola estava aberta. Recuperavam as aulas da greve passada, disse-me a Diretora. Imaginei, pois, que ela podia estar trabalhando, tendo havido nada mais nada do que um engano com o endereço que ela me passara.

- A Professora Raquel?

- Sim, a professora Raquel, de Literatura, está?

- Me desculpe, senhor, mas deve estar havendo algum engano.

- Engano nenhum, senhora! Estou certo que é este o Colégio. Nos conhecemos faz coisa de dois meses. Pela internet – só então me dei conta de que a referência não era das melhores, afinal tem tanto maluco na rede, que me apresentar daquela forma parecia não ajudar muito. -  Nos desencontramos na Jornada, em Passo Fundo – ajuntei pra ver se melhorava o quadro. – Resolvi vir até a cidade. Como não a encontrei em casa... 

- Certo – a Diretora parece me estudava, desconfiada. – Mas o senhor quem é?

-  Ah, sim, me desculpe. Artur. Escritor. De Passo Fundo.

Aquelas palavras, contudo, parece só pioraram a situação, pois a mulher perdeu a cor e começou a cambalear, tendo que ser amparada pelo pessoal da Secretaria, do outro lado do balcão. Não entendi o que estava acontecendo.

Recobrando a consciência, ela me esclareceu:

- A professora Raquel, de Literatura, há coisa de 2 anos, morreu num acidente, quando voltava de Passo Fundo, com os alunos, por ocasião da Jornada de Literatura. Foi uma tragédia! Além dela, morreram o motorista e dois alunos. Outros tantos ficaram feridos. Ela estava feliz. Adorava o que fazia e havia finalmente conhecido o escritor com quem vinha trocando mensagens há algum tempo pela internet. Ela achava que podia estar se apaixonando.

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