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COLETÂNEAS

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SUCESSO(R)

Mostrei-lhe os contos depois da sessão da Academia de Letras. À noite.  Esperei-o na saída, e, como estivesse sozinho, fomos conversando. Até sua casa que não ficava distante.

Conhecia-o há algum tempo, mas nunca tínhamos conversado. Era admirador da sua obra, mas também sabia que ele tinha simpatia por jovens escritores. Hesitei em mostrar meu trabalho.  Antes, contudo, falamos de muitas coisas. Não havia assunto que não dominasse. Só quando chegamos em frente à casa, contei-lhe por que o havia esperado. Gostaria que ele olhasse o material que lhe trouxera, disse, tirando da bolsa o envelope com os originais.

  • Oh! Estou lisonjeado que tenhas confiado a mim essa tarefa.

  • Conheço seu trabalho. Sua avaliação seria muito importante para mim.

  • Desculpe-me.... mas não faço mais isso... aceitar originais. 

  • Hum... então sou eu que lhe peço desculpas.... não sabia...

  • Já fiz muito. É difícil dizer para alguém que ele ainda não está preparado. Na minha idade então... não quero mais me indispor com as pessoas.

 Fiquei um momento sem saber o que fazer com o envelope, até que ele me socorreu:

  • Mas para você... vou abrir uma exceção – disse, tomando-me o envelope das mãos. -   És um jovem inteligente, estou vendo e creio que já vi alguma coisa sua no jornal. Tens personalidade. É a primeira virtude do grande escritor: coragem! Naturalmente que não pode ficar só nisso, mas desconfio que tens potencial. Antes, contudo, gostaria que me respondesses a uma questão.

  • Pois, não! Estou a seu dispor – respondi-lhe, cheio de confiança como é próprio dos inocentes.

  • Morrerias se não pudesses escrever?

Lembrei-me de Rilke e suas Cartas. Sorri. Sabia a resposta.

  • Com certeza!

  • Muito bem! Mas então me digas: o que mais estarias disposto a sacrificar? – perguntou-me, segurando o envelope diante dos meus olhos, com uma das mãos, apoiando-se precariamente sobre a bengala com a outra.  

Parecia um teste. Não podia, no entanto, demonstrar receio. (Como de fato estava sentindo.) Se vacilasse, poria tudo a perder.

  • A vida? – respondi-lhe hesitantemente.

  • Sim... a vida... como diria Rilke.

Deu-me as costas parecendo decepcionado com a coragem que havia me atribuído.

Confuso, queria lhe oferecer mais. Mostrar-lhe que não havia se enganado. Que não se decepcionaria se apostasse em mim. Ansioso para mostra-lhe meu valor, como todo jovem em início de carreira.

 - A alma! – respondi-lhe por fim.

Voltou-se como se a palavra tivesse despertado algo em seu interior, lhe inflamando o olhar.    

- Sim! A alma... Não há escritor sem alma e a alma é o que deve estar nos seus escritos. Um verdadeiro escritor entrega a alma nos seus escritos.

- Concordo! – respondi-lhe com assombro, mas aliviado.  

Com um pequeno sorriso condescendente, como diante da criança apanhada em travessura, voltou-se, mais calmo para entrar, não sem antes dizer que olharia com carinho meu texto.

 

Já se passaram muitos anos da cena que lhes descrevi, mas ela nunca mais me saiu da cabeça. Afinal foi depois daquela noite que as portas começaram a se abrir.

Ele escreveu um artigo elogioso a meu respeito nos jornais locais e, com o prestígio que tinha, despertou a curiosidade sobre minha obra. Encorajado por isso e certo da receptividade, publiquei o trabalho por uma pequena editora local. Não demorou muito para uma grande editora do centro do país demonstrar interesse em publicar meus contos, com distribuição nacional.

O mais novo nome do catálogo da Editora chamou a atenção da mídia e da crítica especializada, que dissecou minha obra com pinças de cirurgião, considerando, ao final que, para a primeira obra, eu tinha alguma qualidade. Mas o sucesso de público acabou pondo uma pá de cal definitiva sobre uma ou outra voz divergente, oriunda, sobretudo, do fato de eu ser um escritor gaúcho com uma linguagem muito marcada pelo regionalismo, como diziam.

Os contos foram adaptados para a TV e comecei efetivamente a viver de literatura quando a Editora comprou meu direitos autorais, presentes e futuros, mediante um pagamento mensal que me permitiu mudar para o centro do país. Só mais tarde fiquei sabendo que os livros dele também eram editados por um ramo dessa Editora. O que talvez significasse que a sua participação no meu sucesso fosse de fato muito além daquele primeiro artigo. Mas isso na época foi apenas uma suspeita que não levei adiante. Aliás, mal tive tempo de me despedir dele e lhe agradecer, antes de partir.

Como eu falei, passaram-se muitos anos daquele primeiro encontro e desde então entrei definitivamente no circuito do sucesso literário, numa roda viva de muito trabalho, entrevistas e badalações, aqui e no exterior, sobretudo em feiras e eventos ligados à literatura. 

Ganhei alguns prêmios, mas minha maior satisfação sempre foi a receptividade do público. Tinha convicção que minhas histórias tocariam o coração das pessoas, mas se não fosse a oportunidade de mostrar meu trabalho por uma grande editora, não teria alcançado esse objetivo. E isso, eu devia a ele.  

Há alguns anos, fiquei sabendo que ele havia adoecido. Depois disso, perdi completamente o contato.

Qual não foi minha surpresa, então, quando me preparava para uma rodada de debates sobre minha obra, em Frankfurt, na feira em que a Alemanha celebrava o ano do Brasil - evento transmitido pela TV Alemã para todo o mundo -, entrou no camarim o meu velho amigo de Passo Fundo.

  • Ora, ora! Você por aqui? Que alegria em revê-lo!

Embora tivesse se passado mais de 15 anos desde aquela noite, percebo que ele permanece igual: traje formal, postura ereta e firme, usando a mesma bengala de madeira torneada, com a empunhadura em forma de cabeça de dragão, segurando na boca um pedra vermelha.   

  • Eu não poderia deixar de vir prestigiar ao meu afilhado.

  • Mas tão longe! Estás a passeio?

  • Não, a trabalho.

  • A trabalho?! Estás na programação da Feira também?

  • Não... Na verdade eu só vim por tua causa.

  • Não entendi. Veio fazer uma matéria sobre mim? – perguntei-lhe perplexo.

  • Não. Vim confirmar nosso acordo.

  • Acordo? Como assim?!

  • Você pode pedir para eles saírem? – disse dirigindo-se à maquiadora, cujo trabalho a entrada dele havia interrompido e ao meu assistente inglês, Richard, aboletado sobre o sofá, perdido em navegações pela internet. Mal havia se dado conta da nossa presença.

  • Vocês podem nos deixar, por uns momentos, por favor?

  • Sim, mas o Senhor não pode demorar. A transmissão começa em 30 minutos.

  • Sim, Richard, eu sei!

  • Não dê bola! – disse ao meu amigo, tão logo eles saíram. – Ele é inglês.

  • Sei. A tal pontualidade inglesa!

  • Exatamente. Por isso o contratei. Para organizar minha agenda, mas às vezes ele se excede.

Sentamos. Ele começou:

-  Lembra aquela noite? Tu concordaste que um escritor tem de entregar a alma nos seus escritos.

  •  Lembro.

  • Então! Aquela noite você a entregou a mim.

  • Como assim?

  • Tu não conseguiste tudo o que querias através da literatura? Fama, dinheiro, reconhecimento, mulheres?  Há muitos anos eu também ambicionei essas coisas.  De uma forma desmedida. Como Rilke disse: não poderia viver sem  escrever.

  • Mas estas palavras não podem ser tomadas ao pé da letra.

  • Para mim, sim. Elas tocaram profundamente minha alma. Quando se apresentou a oportunidade, não hesitei. Tu sabes, não? Quando alguém deseja profundamente uma coisa ele acaba atraindo de forma irresistível o objeto do seu desejo. Como um buraco negro do qual nada escapa. Eu fui contemplado, não tenho do que reclamar. Mas agora meus dias estão se acabando... e percebo, como diz o Pregador que tudo são vaidades debaixo do sol. Resgatar minha alma era o que eu mais queria e foi então que você apareceu. 

  • Continuo não entendendo.

  • Tu eras como eu na juventude... – disse com o olhar distante, como contemplando o passado. Após um instante:  

  •  Deixe eu lhe explicar: aquele que entrega a sua alma, por fama e sucesso, pode resgatá-la se conseguir outro que assuma o seu lugar. Tu assumiste o meu. De certa forma, tu és meu sucessor. Cabe a ti conseguires quem assuma o teu. É isso ou perderás tudo o que conseguiste até aqui.

 

Não sabia o que dizer. No íntimo, contudo, sabia que ele dizia a verdade.

Eu estava no topo do mundo. Como abrir mão de tudo, se afinal, como ele havia dito, no fim da vida eu ainda poderia ter uma chance?

Ele pareceu ler meus pensamentos, pois levantou-se após alguns instantes, como se meu silêncio resolvesse a questão.

  • Foi o que imaginei. Sabia que tu não me decepcionaria. Assim poderei partir descansado. Se obterei a graça do outro lado... não sei! Mas, ao menos, tenho uma chance. Como espero, meu caro tu consigas ter. No futuro. Sempre haverá quem queira te suceder. Basta encontrar a pessoa certa. Como eu te encontrei. Mas não quero mais tomar o teu tempo. Os holofotes te esperam!

Alguns dias depois soube da sua morte. Estava ainda fora do Brasil. Não pude comparecer ao velório. Pedi a Richard que mandasse minhas condolências e uma coroa de flores. Na dedicatória, estas palavras: a quem tudo devo!

 Os anos passaram e acabei fixando-me definitivamente fora do país, onde encontrei melhores condições de trabalho e a mulher responsável por isso, minha atual esposa e tradutora da minha obra para o inglês e o alemão. Volto ao Brasil apenas por ocasião de algum evento relacionado à literatura.  

Qual não foi minha alegria, então, quando recebi o convite para participar da edição daquele ano da Jornada Nacional de Literatura, evento que projetou Passo Fundo no cenário internacional das Letras. Como bom santo de casa que fora enquanto lá estivera nunca fora convidado. Após esses anos de ausência, a aura de exotismo, decerto, havia despertado o interesse. Seria a oportunidade, ademais, de rever a terra da qual há muito tempo havia saído. Oportunidade que por pouco não chegava tarde demais. Falo isso por causa da minha saúde.

Richard, meu assistente, avisou-me ainda que a Academia de Letras queria aproveitar a oportunidade para prestar-me uma homenagem. Contei-lhe então a história de Paulo Giongo, quando ao receber homenagem semelhante da Academia, como um dos seus membros mais antigo, referiu-se ao evento como um reconhecimento “pré-póstumo”. Rimos juntos da brincadeira do velho ator passo-fundense, embora Richard não gostasse que eu tocasse no assunto. “Estás muito novo, Sir, para nos deixar”, dizia com sua inconfundível fleuma inglesa. Sabia, contudo, que era só pela amizade que ele assim se referia a mim. Minha hora estava próxima e, ao pensar nisso, lembrava-me afinal: ainda não havia encontrado meu sucessor.

Na noite da homenagem, após a solenidade, vi-me por um momento sozinho na rua, enquanto Richard se afastava para buscar o carro. Um jovem se aproximou perguntando se podia deixar comigo um envelope. Há muito tempo ele esperava pela oportunidade: me entregar seus originais para uma avaliação. 

Reconheci-o imediatamente.

Trocamos e-mails durante algum tempo e já havia lido dele alguma coisa na internet. Em algum momento das nossas conversas, cheguei a cogitar que podia ser ele... Mas acabamos perdendo o contato.  A sua coragem e persistência, no entanto, agora me davam certeza.

- Certamente! Vou olhar com carinho. Mas me diga: morrerias se não pudesses escrever?

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